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A pílula contra o câncer que fez médicos chorarem no maior congresso de oncologia do mundo

CABUL (Pajhwok)

Durante anos, eles aprenderam a não criar expectativas. Em Chicago, diante de um auditório lotado, alguns dos maiores especialistas em câncer do planeta viram números que pareciam desafiar tudo o que conheciam sobre uma das doenças mais letais da medicina. Muitos se levantaram. Alguns choraram.

Chicago, 1º de junho de 2026.

Os médicos que ocupavam cada cadeira da sessão plenária da American Society of Clinical Oncology (ASCO), o maior congresso de oncologia do mundo, não são pessoas facilmente impressionáveis.

Eles convivem diariamente com diagnósticos devastadores. Informam famílias sobre tratamentos que não funcionaram. Acompanham pacientes que lutam por meses e, muitas vezes, não conseguem vencer a doença. Aprenderam que esperança, na oncologia, precisa caminhar ao lado da prudência.

Por isso, o silêncio que tomou conta do auditório quando os resultados finais do estudo RASolute 302 apareceram na tela tinha um significado especial.

Não era apenas mais uma apresentação científica.

Era o anúncio de algo que, durante décadas, muitos consideraram praticamente impossível.

Quando os números surgiram, o silêncio deu lugar aos aplausos.

Depois vieram as lágrimas.

Não lágrimas de euforia fácil, mas de quem passou a vida inteira tentando oferecer mais tempo a pacientes que quase nunca tinham uma segunda chance.

O medicamento em questão chama-se daraxonrasib, um comprimido administrado uma vez ao dia para pacientes com câncer de pâncreas metastático que já haviam esgotado as opções convencionais de quimioterapia.

E os resultados foram extraordinários.

No grupo de pacientes com a mutação RAS G12, a mais comum nesse tipo de tumor, a sobrevida mediana saltou de 6,6 meses para 13,2 meses.

Na prática, isso significou dobrar o tempo de vida esperado para pessoas que já haviam recebido a notícia mais difícil possível: a de que os tratamentos disponíveis deixaram de funcionar.

O risco de morte caiu 60%.

O tempo até a progressão da doença também dobrou.

Mais de 31% dos pacientes apresentaram redução mensurável dos tumores, quase três vezes mais do que os tratados com quimioterapia convencional.

E talvez o dado mais surpreendente tenha sido outro: o tratamento mostrou baixa toxicidade. Apenas 1,2% dos pacientes precisaram interromper o uso devido aos efeitos colaterais.

Para quem observa os números de fora, eles podem parecer apenas estatísticas.

Para os médicos presentes naquele auditório, cada porcentagem tinha rosto, nome e história.

Representava pais que poderiam ver mais um aniversário dos filhos.

Avós que ganhariam mais um Natal em família.

Pacientes que, até pouco tempo atrás, tinham perspectivas extremamente limitadas.

A doença que parecia impossível de vencer

Poucos cânceres carregam uma reputação tão sombria quanto o câncer de pâncreas.

A doença costuma crescer silenciosamente. Na maioria dos casos, quando os sintomas aparecem, o tumor já está avançado ou espalhado para outros órgãos.

Cerca de 80% dos pacientes recebem o diagnóstico quando a cirurgia curativa já não é possível.

Nos Estados Unidos, aproximadamente 60 mil pessoas recebem esse diagnóstico todos os anos. Cerca de 50 mil morrem.

No Brasil, são aproximadamente 13 mil novos casos anuais e cerca de 12 mil mortes.

A taxa de sobrevida em cinco anos para a forma metastática gira em torno de apenas 3%.

É uma das mais baixas da oncologia.

Por trás dessa agressividade está uma proteína chamada RAS.

Quando sofre mutação, ela funciona como um interruptor travado na posição ligada, enviando continuamente sinais para que as células tumorais cresçam e se multipliquem.

Durante décadas, cientistas de todo o mundo tentaram bloquear esse mecanismo.

Fracassaram repetidamente.

A proteína ganhou um apelido que se tornou quase lendário na pesquisa do câncer: “undruggable”, ou seja, impossível de ser atingida por medicamentos.

Era um dos maiores desafios da medicina moderna.

O daraxonrasib conseguiu fazer exatamente isso.

E foi essa conquista que emocionou tantos especialistas em Chicago.

Não se tratava apenas de um novo remédio.

Era a demonstração de que uma porta considerada fechada por gerações de pesquisadores finalmente havia sido aberta.

“O aplauso em pé foi merecido”

O oncologista Stephen Stefani, da Americas Health Foundation, acompanhou a apresentação presencialmente.

Segundo ele, raramente um estudo reúne tantos elementos positivos ao mesmo tempo.

“Estamos falando de um medicamento com baixa toxicidade, ganho expressivo de sobrevida e um mecanismo completamente novo para uma doença historicamente muito difícil de tratar”, afirmou.

Mas, para muitos dos presentes, a emoção ia além da ciência.

Era a sensação de testemunhar um momento histórico.

Em um campo acostumado a pequenas vitórias graduais, os resultados do daraxonrasib representaram algo diferente.

Representaram a possibilidade concreta de oferecer tempo.

Tempo para viver.

Tempo para planejar.

Tempo para estar com quem se ama.

Tempo que, até agora, parecia fora de alcance para milhares de pacientes com câncer de pâncreas avançado.

Talvez seja por isso que alguns médicos choraram.

Não porque esqueceram o rigor científico.

Mas porque, por alguns instantes, os números deixaram de ser apenas números.

E se transformaram em algo muito mais raro dentro da oncologia: esperança sustentada por evidências.