Desde 2019: SAÚDE é considerada a profissão mais perigosa do mundo – pandemia da COVID-19

Por: Ivan Rodrigues

Ivan Rodrigues
Profissionais de saúde da linha de frente no combate a Covid-19, em Manaus

Tudo começou em 31 de dezembro de 2019, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi alertada sobre vários casos de pneumonia na cidade de Wuhan, província de Hubei, na República Popular da China. Foi então descoberto a nova cepa de coronavírus que não havia sido identificada antes em seres humanos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que entre 80 mil a 180 mil profissionais de saúde morreram em decorrência da COVID-19 entre janeiro de 2020 e maio de 2021. Atualmente, o número já é bem maior.

Na maior cidade do Brasil, São Paulo, o afastamento dos profissionais de saúde da rede pública após terem contraído Covid-19 quase triplicou em menos de um mês. Segundo dados da própria prefeitura, em 9 de dezembro do ano passado, a cidade tinha 90 profissionais afastados pela doença – entre médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos de enfermagem e agentes de saúde. Quatro semanas após, no dia 6 de janeiro de 2022, já totalizavam 269 registros, um crescimento de 298,8%.

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Piores salários

Se você está em dúvida sobre qual curso e profissão escolher, pense muito, muito mesmo antes de escolher a área da saúde. Hoje quem trabalha como Enfermeiro, Biomédico, Fisioterapia e Técnico de Enfermagem ganha respectivamente em média salário de R$ 3.899,34 e R$ 1.822,00 – salário injusto para o grande risco de vida e a pesada carga horária.

Em meados de 2016, Crislane Silva, 22 anos, teve seu primeiro contato com a enfermagem. Desde então, passou a pesquisar sobre a área e se inscreveu no curso técnico em Manaus, entusiasmada que fosse realmente isso que queria para sua vida.

Crislane Silva

“O curso foi muito importante, tanto profissional, como pessoalmente. Amadureci bastante, passei a ter um olhar mais humanista para a vida à minha volta. Apesar de todas as dificuldades em pagar as mensalidades, transporte e material escolar, essas coisas nunca foram motivo para eu desistir; pois eu acreditava que aquele investimento me traria retorno. “Isso me dava mais forças para continuar. 

A cada estágio uma experiência única. Porém, não remunerada. Nesse período, aprendi, de um lado, a me virar sozinha, do outro, a lidar com minhas emoções e ser mais empática. Eu me comprometi literalmente com meu local de trabalho e, principalmente, com os pacientes. Pois eu sabia que nas condições em que muitos ali estavam, era necessária a melhor versão de mim, para assim prestar uma assistência de qualidade”. 

Então chegou o tão sonhado momento: o dia em que Crislane se formou, em outubro de 2018. Ela estava com muitas expectativas, tinha se especializado em Urgência e Emergência e estava pronta para o mercado.

Na busca incessante por trabalho e na dificuldade em conseguir, passou a se questionar sobre a escolha do meu curso. Mas ainda se manteve esperançosa. Afinal, tinha acabado de se formar. Decidiu continuar sua busca, até que conseguiu seu primeiro trabalho, quando, inesperadamente, veio a segunda frustração: as condições de trabalho totalmente precárias, 12 horas de plantões exaustivos, salários baixíssimos (sem contar os atrasos de pagamento), sobrecarga de trabalho, falta de reconhecimento e desgaste psicológico.

A enfermagem sempre viveu condições de trabalho precárias; e isso, até hoje, não é novidade para nenhum profissional da área. 

“Em 2020, trabalhei na linha de frente no combate ao Covid-19 em Manaus pelo Ministério da Saúde. Neste período de calamidade pública, percebemos o quão são importantes os profissionais da saúde e, ao mesmo tempo, o quão não são reconhecidos nem valorizados. De profissionais, tivemos que nos transformar literalmente em “heróis”, que trabalham muitas vezes sem as condições necessárias e sem o devido apoio das autoridades, na maioria das vezes negligentes e omissas”. 

“Estamos em 2022, e novas variantes da Covid estão se espalhando e as condições de trabalho dos profissionais de saúde continuam as mesmas e a única coisa que mudou é “que eu, junto com muitos profissionais tidos como “heróis” estão desempregados aguardando receber alguns direitos trabalhistas que o Ministério da Saúde ainda não honrou conosco”.

“Hoje, voltei a ser estudante, decidi começar a graduação, já tinha em mente que não seria mais profissional de enfermagem. Então, pensei em expandir meus horizontes e optei por cursar engenharia química. No começo, foi um pouco difícil, afinal é um curso que exige muito; mas eu aprendi a me apaixonar pelo assunto ao longo do processo”.

Num prédio da Av. Eduardo Ribeiro, que corta o centro de Manaus, foi pintado um grande mural em homenagem aos profissionais que estão na linha de frente no combate a Covid-19. Em caráteres cubitais, uma citação do artista Lobão: “Isso tudo vai passar”.

Foto: Divulgação Jael Lucena

O fisioterapeuta Esdra Monteiro, 40 anos, de Brasília, comunga das mesmas decepções que Crislane Silva. Formado há 10 anos, trabalhando em uma grande rede de hospitais particulares na capital federal, Esdra começou a cursar o curso de programação para de vez, abandonar a área da saúde.

“É muito frustrante escolher uma profissão de importância ímpar para a saúde e a sociedade e saber que para os donos de hospitais a valorização está focada na medicina. Afinal, são os médicos que pedem ressonância magnética e tomografia computadorizada mesmo sem necessidade para enriquecerem os donos dos hospitais, dos quais são participantes”, afirmou,

Esdra já está em contagem para trocar de profissão, quando se formará em maio de 2023, aposentando a antiga profissão da qual diz que não sentirá saudades.

“Assim como foi um sonho quando me formei, também será quando deixar a profissão. Oriento meus filhos a não seguirem nenhuma profissão na área da saúde, que não seja a medicina”.

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