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domingo, junho 14, 2026
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OPINIÃO | Arruda o vendedor de ilusões voltou? Brasília precisa lembrar antes de votar

Lágrimas, afeto e proximidade popular compõem uma das imagens mais poderosas da política. Resta saber se a emoção será suficiente para superar as lembranças do passado.
Na política, a emoção conquista corações. Nas urnas, porém, é a memória dos fatos que deve orientar as escolhas.

A política tem memória curta. O eleitor, às vezes, também.

É justamente dessa combinação perigosa que sobrevivem muitos dos personagens que tentam retornar ao poder como se o passado nunca tivesse existido.

No Distrito Federal, poucos nomes simbolizam tão bem essa realidade quanto José Roberto Arruda.

Nos bastidores da política brasiliense, multiplicam-se relatos de conversas, articulações e promessas de um eventual retorno ao poder. Há quem diga já ter recebido garantias de espaços administrativos. Há quem acredite em futuras nomeações. Há quem sonhe com fatias de um governo que sequer existe.

O mais curioso é que Arruda sequer pode disputar o cargo.

Mas isso não impede que continue vendendo expectativas.

Nem que alguns continuem comprando.

Talvez Brasília devesse criar uma nova secretaria: a Secretaria de Administração das Ilusões Políticas. O órgão teria uma única missão: acomodar todos aqueles que acreditam que promessas eleitorais feitas nos bastidores equivalem a compromissos reais.

A ironia é que essa história não é nova.

Quem conhece minimamente a trajetória política de Arruda sabe que a distância entre discurso e realidade sempre foi um tema recorrente.

Em 2007, o então governador protagonizou um dos episódios mais curiosos da política brasileira ao publicar um decreto “demitindo” o gerúndio da administração pública.

Segundo ele, expressões como “vamos estar providenciando”, “vamos estar analisando” e “vamos estar resolvendo” eram instrumentos da burocracia para mascarar atrasos e esconder ineficiência.

A tese parecia interessante.

O problema é que a história seria implacável com seu próprio autor.

Pouco tempo depois, o governo que prometia eficiência mergulharia em uma das maiores crises políticas da história do Distrito Federal.

A Operação Caixa de Pandora expôs um esquema que transformou a capital da República em manchete nacional e internacional. O episódio resultou na prisão do governador, na queda de seu governo e na exposição de diversos integrantes da base política que sustentava aquele projeto de poder.

A burocracia não foi o grande problema daquele período.

O problema foi outro.

Muito maior.

Muito mais grave.

O gerúndio foi exonerado do Diário Oficial.

Mas a cultura política que permitiu o desastre permaneceu viva.

Mais emblemático ainda foi um episódio anterior.

Em abril de 2001, na tribuna do Senado Federal, Arruda jurou pela honra e pelos próprios filhos que não havia participado da violação do painel eletrônico da votação secreta que cassou o mandato do então senador Luiz Estevão.

Dias depois, a verdade apareceu.

O escândalo provocou sua renúncia ao mandato de senador e produziu uma das cenas mais constrangedoras da história recente do Congresso Nacional.

A partir daquele momento, uma pergunta passou a acompanhar sua trajetória política:

Se alguém é capaz de jurar algo tão grave diante do país inteiro e posteriormente ser desmentido pelos fatos, qual o valor político de suas promessas?

Essa é a questão que Brasília deveria estar debatendo em 2026.

Não se trata de perseguição.

Não se trata de ressentimento.

Não se trata sequer do direito de qualquer cidadão participar do debate político.

Trata-se de credibilidade.

A política é construída sobre confiança.

Governos são construídos sobre confiança.

Lideranças são construídas sobre confiança.

E confiança não nasce dos discursos.

Nasce da coerência entre palavras e fatos.

O eleitor brasiliense tem todo o direito de ouvir propostas.

Mas tem também a obrigação democrática de comparar cada promessa com o histórico de quem a apresenta.

A eleição de 4 de outubro não será apenas uma disputa entre candidatos.

Será um julgamento da memória coletiva do Distrito Federal.

De um lado estará a narrativa da reconstrução política.

Do outro, os registros documentados da história.

E a história possui uma característica inconveniente para quem deseja reescrevê-la:

Ela não desaparece porque alguém deseja voltar ao poder.

Ela continua lá.

Nos arquivos.

Nas investigações.

Nas manchetes.

Nas lembranças.

E principalmente na responsabilidade do eleitor diante da urna.

Brasília pode até ser convencida por novas promessas.

Mas não pode alegar desconhecimento sobre o passado.