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Eleições 2026: o problema é continuar elegendo o passado

Entre os nomes que representam o passado e a estrada que aponta para o futuro, a escolha de 2026 estará nas mãos do eleitor.

Há músicas que atravessam gerações. E há músicas que parecem esperar décadas até encontrar novamente o seu momento. “Como Nossos Pais”, de Belchior, eternizada na voz de Elis Regina, talvez seja uma delas.

Mas é você que ama o passado / E que não vê / Que o novo sempre vem.”

Quase meio século depois, esses versos poderiam ser colocados diante do eleitor brasileiro como uma pergunta incômoda para 2026: estamos realmente escolhendo o futuro ou apenas repetindo o passado?

A questão não é apagar a história. Tampouco desprezar quem já governou, quem construiu trajetórias ou quem acumulou experiência na vida pública. O passado tem valor. Ensina, alerta e, muitas vezes, oferece referências que não podem ser simplesmente descartadas.

O problema começa quando a memória se transforma em dependência.

Quando os mesmos nomes passam a ser tratados como se fossem indispensáveis. Quando antigas disputas continuam determinando o presente. Quando o eleitor é convocado, eleição após eleição, a escolher entre personagens que já conhece, discursos que já ouviu e promessas que, em muitos casos, já tiveram a oportunidade de se transformar em realidade.

Uma democracia saudável não deveria ter medo de renovar seus protagonistas.

E renovação não significa simplesmente trocar uma pessoa mais velha por uma mais jovem. Há jovens carregando ideias velhas e políticos experientes capazes de pensar o futuro. A verdadeira renovação é muito mais profunda: é a capacidade de romper com fórmulas que deixaram de responder às necessidades de uma sociedade que mudou.

É aí que Belchior se torna ainda mais atual.

Porque “o novo sempre vem”, mas isso não significa que o novo necessariamente vencerá.

Pode haver resistência. Pode haver nostalgia. Pode haver medo de experimentar. Pode haver, inclusive, o conforto de escolher aquilo que já conhecemos, mesmo sabendo de suas limitações.

O eleitor também participa desse ciclo.

A política não é feita apenas pelos políticos. É feita pelas escolhas de milhões de pessoas que, diante da urna, decidem quais histórias continuarão e quais terão a oportunidade de começar.

Por isso, talvez a pergunta mais importante de 2026 não seja simplesmente quem está preparado para voltar.

Talvez seja:

quem está preparado para construir aquilo que ainda não existe?

O Brasil — e cada estado, cada cidade — mudou. A tecnologia mudou. O mercado de trabalho mudou. A maneira como as pessoas se comunicam mudou. As novas gerações têm outras expectativas, outros desafios e outras formas de enxergar o mundo.

Mas parte da política continua tentando explicar o amanhã com os personagens de ontem.

Não se trata de demonizar o passado. Trata-se de colocá-lo no seu devido lugar.

O passado pode ser uma referência. Não pode ser uma prisão.

Talvez seja essa a consciência que a eleição de 2026 precise produzir: não uma guerra entre velhos e novos, entre experientes e inexperientes, entre esquerda e direita, entre grupos políticos rivais.

Mas uma discussão muito mais essencial:

que futuro queremos construir — e quem tem capacidade de construí-lo?

Porque o voto não deveria ser uma homenagem permanente.

Não é medalha por serviços prestados.

Não é dívida de gratidão.

Não é obrigação com um sobrenome, uma legenda ou uma história.

O voto é uma procuração temporária concedida pelo cidadão para que alguém cuide do interesse público.

E procurações, em uma democracia, precisam ser avaliadas.

Quem já teve oportunidade de governar precisa prestar contas do que fez. Quem nunca governou precisa demonstrar por que merece a oportunidade. Quem retorna precisa explicar o que faria diferente. E quem chega pela primeira vez precisa provar que novidade não é apenas discurso.

É assim que o passado pode ser respeitado sem impedir o futuro.

Em 2026, talvez o maior desafio não seja encontrar o candidato perfeito — porque ele provavelmente não existe.

Talvez seja vencer a tentação de escolher automaticamente aquilo que já conhecemos.

O novo não precisa ser jovem.

O novo precisa ser novo na maneira de pensar, de governar e de enxergar o cidadão.

E talvez essa seja a grande provocação deixada por Belchior para uma eleição que ainda nem começou:

o novo sempre vem.

A pergunta é outra.

Quando ele chegar, estaremos preparados para reconhecê-lo?

Ou continuaremos amando tanto o passado que, mais uma vez, não conseguiremos enxergar o futuro?