
Araticum reúne mais de 180 organizações, povos e comunidades tradicionais, agricultores, pesquisadores e governos em uma estratégia que combina restauração, produção e geração de renda; UnB participa da pesquisa sobre sementes nativas
O Cerrado brasileiro acaba de ganhar um reconhecimento que ultrapassa as fronteiras ambientais do país. A Organização das Nações Unidas (ONU) escolheu a iniciativa Araticum — Restauração do Cerrado Brasileiro — como uma Iniciativa de Referência da Restauração Mundial (World Restoration Flagship), colocando a experiência brasileira entre os projetos considerados exemplares para a recuperação de ecossistemas em escala.
O reconhecimento foi anunciado em 26 de agosto, durante a 17ª sessão da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17 da UNCCD), em Ulaanbaatar, na Mongólia. A escolha foi feita no âmbito da Década da ONU da Restauração de Ecossistemas (2021–2030), iniciativa conduzida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
A dimensão do reconhecimento pode ser medida por um dado: o Brasil é o único país que, até agora, recebeu dois títulos de World Restoration Flagship. A Araticum se junta a outra iniciativa brasileira já reconhecida pela ONU, enquanto os novos títulos anunciados na COP17 também contemplaram projetos de restauração na Arábia Saudita e no Sahel.
Mais do que um prêmio, a chancela coloca uma experiência brasileira dentro de uma discussão que interessa diretamente ao futuro da segurança alimentar, da água, do clima e da biodiversidade.
Por que o Cerrado interessa ao mundo
A restauração do Cerrado não é apenas uma questão de conservação de espécies. O bioma ocupa mais de 2 milhões de quilômetros quadrados e já perdeu mais da metade de sua vegetação nativa original, segundo a ONU. A conversão de terras, a fragmentação dos ambientes naturais e as mudanças climáticas aumentam a pressão sobre um dos ecossistemas mais biodiversos do planeta.
É nesse ponto que a experiência brasileira ganha dimensão internacional.
Para a ONU, a recuperação de áreas degradadas está diretamente relacionada à capacidade de enfrentar problemas que ultrapassam as fronteiras dos países: degradação do solo, secas, mudanças climáticas, perda de biodiversidade e insegurança alimentar.
Os três projetos reconhecidos na COP17 — Araticum, a iniciativa do Sahel e o programa de restauração de paisagens áridas da Arábia Saudita — assumiram juntos o compromisso de restaurar quase 5 milhões de hectares até 2030. A ONU estima que os projetos reconhecidos pela Década da Restauração já somam quase 20 milhões de hectares em restauração e compromissos para recuperar cerca de 75 milhões de hectares até 2030.
O objetivo global é ainda maior: os países já assumiram compromissos para restaurar 1 bilhão de hectares de terras degradadas, área superior à da China. O desafio, porém, não é apenas recuperar áreas no papel, mas comprovar que a restauração está funcionando e produzindo resultados duradouros.
É justamente nesse cenário que a Araticum ganha importância.
Uma rede de mais de 180 organizações
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A Araticum não funciona como um projeto convencional de plantio de árvores. Trata-se de uma rede colaborativa criada em 2020 que reúne mais de 180 organizações e centenas de pessoas envolvidas com a restauração do Cerrado.
Participam da articulação povos indígenas, comunidades quilombolas e tradicionais, agricultores, pesquisadores, organizações da sociedade civil e instituições governamentais. A atuação se estende por nove estados brasileiros.
A meta estabelecida pela rede é ambiciosa: restaurar 2 milhões de hectares do Cerrado até 2030.
Até junho de 2026, mais de 27 mil hectares já estavam mapeados em processos de restauração. Também foram coletadas e utilizadas sementes de mais de 150 espécies nativas.
A restauração pode ocorrer por diferentes caminhos, dependendo das características de cada território. Entre as estratégias estão a regeneração natural, a semeadura direta, a restauração ativa e sistemas agroflorestais e agrocerratenses com espécies nativas.
A lógica é diferente daquela em que restaurar significa simplesmente substituir uma área degradada por uma grande quantidade de mudas.
No Cerrado, a paisagem é formada por diferentes fisionomias, incluindo campos e formações savânicas. Por isso, a restauração precisa considerar as características ecológicas de cada ambiente, a diversidade de espécies e a dinâmica do território.
Restaurar sem separar conservação e produção
Uma das questões mais relevantes da experiência reconhecida pela ONU está justamente na relação entre restauração ambiental e atividade econômica.
A Araticum defende que restauração e produção não precisam ocupar lados opostos. Ao contrário: a recuperação da funcionalidade ecológica das paisagens pode fazer parte de sistemas produtivos.
É nesse contexto que entram os chamados Sistemas Agrocerratenses, que procuram combinar espécies agrícolas e nativas do Cerrado, respeitando as características das formações savânicas e campestres.
A proposta inclui espécies com diferentes funções, como cobertura do solo, alimentação, forragem, atração de fauna, formação do solo e infiltração de água.
A estratégia também pode gerar renda para agricultores familiares, povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
A própria Araticum considera a restauração um potencial vetor econômico para essas populações e relaciona a recuperação do bioma à manutenção da água, da sociobiodiversidade e da capacidade de adaptação às mudanças climáticas.
O conceito é importante porque enfrenta uma das principais dificuldades da restauração em larga escala: como convencer quem vive e produz no território de que recuperar a vegetação nativa também pode representar uma oportunidade econômica?
A semente que sai do território e chega à universidade
No Distrito Federal, essa discussão ganha uma dimensão científica.
A Universidade de Brasília (UnB) participa da cadeia de conhecimento que sustenta a restauração por meio de pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Termobiologia, vinculado ao Instituto de Ciências Biológicas.
O laboratório trabalha com germinação de sementes, crescimento inicial de espécies nativas e efeitos de condições extremas de temperatura e déficit hídrico.
A pesquisa também mantém uma parceria com coletores de sementes da Chapada dos Veadeiros. O trabalho permite analisar características das espécies e avaliar, entre outros aspectos, efeitos do fogo, da seca e das variações de temperatura sobre a germinação e o desenvolvimento das plantas.
Essa conexão entre território e universidade é estratégica.
A semente não chega ao laboratório como um elemento isolado. Ela faz parte de uma cadeia que começa com pessoas que conhecem as plantas e os ambientes onde elas ocorrem, passa pelo beneficiamento e pela análise científica e chega à área que será restaurada.
Em estudos anteriores, pesquisadores da UnB já haviam reunido informações sobre mais de 300 espécies de sementes nativas do Cerrado. A pesquisa também busca compreender quais espécies podem apresentar maior capacidade de adaptação diante das condições climáticas futuras.
Ciência para um Cerrado que terá outro clima
Esse aspecto ganha ainda mais importância diante das mudanças climáticas.
Uma restauração realizada hoje precisa produzir um ecossistema capaz de sobreviver às condições ambientais das próximas décadas. Não basta perguntar qual espécie ocorre atualmente em determinado local. É necessário compreender como ela responde ao aumento da temperatura, à alteração do regime de chuvas, ao fogo e à disponibilidade de água.
Um estudo desenvolvido no Laboratório de Termobiologia da UnB, por exemplo, investiga os efeitos do aumento da temperatura do solo sobre a emergência e a sobrevivência de gramíneas nativas do Cerrado.
Outra pesquisa recente analisa como diferentes regimes de fogo influenciam a qualidade de sementes de gramíneas nativas utilizadas na restauração.
É nesse ponto que a restauração deixa de ser apenas uma ação de plantio e passa a envolver ciência, genética, ecologia, clima e planejamento territorial.
O Cerrado como infraestrutura natural da água
A discussão sobre água talvez seja uma das dimensões mais importantes da pauta.
A conservação e a recuperação do Cerrado estão associadas à manutenção dos processos ecológicos que sustentam as bacias hidrográficas. Por isso, restaurar o bioma não significa apenas recuperar paisagens ou aumentar a cobertura vegetal: significa também recuperar funções ecológicas importantes para os territórios.
A Araticum recomenda que projetos de restauração considerem a paisagem e as bacias hidrográficas, incluindo áreas de preservação permanente, reservas legais e áreas produtivas. A rede também defende a adoção de práticas de conservação do solo e sistemas produtivos adequados às características do Cerrado.
O raciocínio é simples, mas estratégico: a produção de alimentos depende da água; a disponibilidade de água depende da integridade dos ecossistemas; e a restauração passa a ser parte da própria segurança econômica.
É justamente essa conexão que ajuda a explicar por que a ONU coloca a restauração de terras entre as respostas necessárias às crises climática, hídrica e alimentar.
Brasília como parte dessa experiência
O Distrito Federal aparece nessa história não apenas como sede da capital federal, mas como território onde diferentes componentes da restauração estão sendo experimentados.
Além da participação científica da UnB, existem iniciativas de restauração e produção com espécies nativas em áreas rurais do DF.
O assentamento Oziel Alves III, em Planaltina, por exemplo, já recebeu atividades relacionadas aos Sistemas Agrocerratenses, envolvendo coletores de sementes, agricultores, pesquisadores e organizações ligadas à Araticum e à Rede de Sementes do Cerrado.
A experiência mostra uma característica fundamental do modelo: a restauração não termina quando a semente é plantada.
Ela envolve quem coleta, quem pesquisa, quem produz, quem restaura, quem financia, quem monitora e quem vive no território.
Essa lógica também explica por que a ONU trata as iniciativas reconhecidas como referências de restauração em grande escala e de longo prazo. O objetivo é identificar experiências capazes de demonstrar que compromissos ambientais podem sair do papel e produzir resultados mensuráveis.
O desafio agora é sair dos milhares para os milhões
O reconhecimento internacional aumenta a visibilidade da Araticum, mas também torna mais evidente o tamanho do desafio.
Entre os mais de 27 mil hectares já mapeados e a meta de 2 milhões de hectares até 2030 existe uma distância de escala que exigirá financiamento, políticas públicas, conhecimento técnico, participação social e adesão de proprietários e produtores.
A própria rede considera que projetos de restauração precisam incorporar metas ambientais e socioeconômicas e que o envolvimento das comunidades deve ocorrer desde o planejamento.
A experiência também mostra que não existe uma única receita para restaurar o Cerrado.
Uma área pode depender de regeneração natural. Outra pode exigir semeadura direta. Em áreas produtivas, sistemas agrocerratenses podem ser uma alternativa. Em áreas degradadas, diferentes técnicas podem ser combinadas.
O princípio é restaurar a funcionalidade da paisagem, e não simplesmente criar uma imagem de floresta onde antes havia um ecossistema de savana ou campo.
Um laboratório brasileiro para um problema global
O reconhecimento da ONU coloca o Cerrado diante de uma audiência internacional.
A pergunta que passa a interessar não é apenas quanto o Brasil conseguirá restaurar até 2030. É também o que outros países poderão aprender com essa experiência.
Em regiões atingidas por degradação do solo, perda de biodiversidade, secas e insegurança alimentar, a experiência brasileira oferece um modelo que combina restauração ecológica, conhecimento tradicional, ciência, produção e geração de renda.
O cenário internacional ajuda a dimensionar o problema. Até 40% das terras do planeta são consideradas degradadas, segundo estimativas apresentadas durante a COP17, enquanto a degradação e as secas aumentam a pressão sobre sistemas agrícolas e comunidades.
Nesse contexto, o Cerrado deixa de ser apenas uma questão brasileira.
A savana que abastece importantes regiões produtoras e desempenha papel estratégico na segurança hídrica brasileira passa a funcionar também como um laboratório de soluções para um problema que o mundo inteiro terá de enfrentar: recuperar terras degradadas sem comprometer a produção de alimentos e sem deixar de lado as populações que vivem nesses territórios.
A escolha da Araticum pela ONU representa, portanto, mais do que um reconhecimento ambiental.
É um sinal de que a restauração do Cerrado passou a ser observada como uma experiência capaz de contribuir para uma agenda global que reúne água, clima, alimentos, biodiversidade, ciência e desenvolvimento econômico.
E o desafio, agora, é transformar o reconhecimento internacional em escala suficiente para que os 2 milhões de hectares deixem de ser apenas uma meta e se tornem parte concreta da recuperação do Cerrado.
Na cidade do Riacho Fundo, um grupo segue as mesmas diretrizes de preservação do Cerrado
Liderado pelo enfermeiro e ambientalista, Ivan Rodrigues, o grupo atua na restauração do cerrado desde 1999.
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