
Paula Belmonte propõe ampliar a atenção básica, mas a discussão sobre novas unidades passa necessariamente por financiamento, equipes, custeio e capacidade de execução do SUS
A proposta apresentada pela candidata ao Governo do Distrito Federal Paula Belmonte (PSDB), durante sabatina no DF1, de construir 40 novas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) coloca novamente a atenção primária no centro do debate eleitoral. A candidata também defendeu a digitalização da saúde, a reorganização das filas, o acompanhamento domiciliar e mudanças no modelo de gestão do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF).
O problema é que, na administração pública, especialmente na saúde, construir é apenas uma parte da conta.
Uma UBS não funciona apenas com paredes, consultórios e equipamentos. Depois da inauguração começam despesas permanentes com profissionais, medicamentos, insumos, limpeza, segurança, energia, manutenção, tecnologia, transporte, regulação e demais serviços necessários para manter a unidade aberta e funcionando.
É justamente nesse ponto que a discussão sobre as 40 novas UBSs precisa avançar.
Antes do prédio, vem a conta
A saúde pública do Distrito Federal trabalha com uma estrutura orçamentária pressionada por despesas obrigatórias e pela necessidade permanente de custeio da rede.
Em abril deste ano, o Ministério Público de Contas do Distrito Federal informou, com base em dados apresentados pela própria Secretaria de Saúde, que havia um déficit global de 26,49% entre o teto orçamentário destinado à SES-DF e a necessidade calculada para a execução das despesas essenciais de 2026.
O problema atingia diferentes grupos de despesa. Nas chamadas Outras Despesas Correntes, que abrangem parte importante do custeio da rede, o déficit apontado era de 47,10%. Em pessoal, chegava a 8,45%.
A situação levou a SES-DF a solicitar à Secretaria de Economia um extrateto superior a R$ 3,31 bilhões.
Desse montante, segundo o MPCDF, aproximadamente:
- R$ 1,329 bilhão seria destinado a pessoal;
- R$ 1,186 bilhão a custeio;
- R$ 798,6 milhões a investimentos.
Portanto, qualquer candidato que proponha expansão física da rede precisa apresentar também a equação financeira capaz de sustentar essa expansão.
UBS nova exige equipe nova
Na entrevista, Paula Belmonte afirmou que pretende construir 40 UBSs porque as unidades precisam estar próximas das residências e que pretende fortalecer a atenção preventiva.
A lógica da atenção primária está de acordo com os princípios do SUS. O próprio Ministério da Saúde estabelece que o financiamento da Atenção Primária é tripartite e envolve União, estados, municípios e Distrito Federal. Os recursos federais podem estar vinculados a equipes e estratégias específicas, além de recursos destinados a investimentos em obras e equipamentos.
Mas existe uma diferença fundamental entre obter recursos para construir uma unidade e ter dinheiro para mantê-la funcionando durante anos.
Uma nova UBS precisa de equipes credenciadas, profissionais cadastrados, estrutura multiprofissional, insumos e financiamento permanente. O modelo federal de cofinanciamento da Atenção Primária possui componentes específicos para equipes de Saúde da Família, Saúde Bucal e equipes multiprofissionais, além de mecanismos vinculados ao desempenho e à implantação de serviços.
Por isso, a pergunta que fica para qualquer candidato é simples:
Quanto custará construir as 40 UBSs e quanto custará mantê-las funcionando anualmente?
O desafio não termina na atenção básica
A saúde do DF não é composta apenas pela Atenção Primária.
É preciso financiar simultaneamente UBSs, hospitais, UPAs, medicamentos, exames, cirurgias, UTIs, serviços especializados, regulação, transporte sanitário e toda a estrutura administrativa e assistencial que mantém o sistema funcionando.
O próprio MPCDF apontou, em 2026, déficits relevantes em medicamentos, serviços complementares e órteses e próteses. Segundo o órgão, a insuficiência alcançava 77,05% em determinada programação de medicamentos, 76,50% em serviços complementares e 73,78% em órteses e próteses.
É nesse contexto que a promessa de expansão precisa ser acompanhada de um plano de financiamento.
Não basta dizer “vamos construir 40 UBSs”.
É necessário explicar:
quanto custa cada unidade;
qual será a fonte de recursos para a construção;
quantas equipes serão criadas;
quantos profissionais serão contratados;
quanto custará a folha dessas novas equipes;
qual será o custo anual de medicamentos e insumos;
como será financiada a manutenção das unidades;
quanto virá de recursos próprios do DF e quanto dependerá do financiamento federal;
e como tudo isso será compatibilizado com as demais necessidades da rede.
Digitalização também não é apenas instalar um sistema
A candidata também afirmou que pretende digitalizar o governo para que o cidadão consiga acompanhar consultas, cirurgias e filas.
A proposta enfrenta um problema semelhante.
Digitalizar a saúde pública exige integração de sistemas, interoperabilidade, infraestrutura tecnológica, segurança da informação, atualização de equipamentos, treinamento dos profissionais e governança dos dados.
Não se trata simplesmente de colocar um aplicativo no ar.
A tecnologia pode melhorar a gestão, mas precisa estar integrada aos processos de regulação, prontuário, marcação de consultas, exames, cirurgias e acompanhamento dos pacientes.
E o Iges-DF?
Na mesma entrevista, Paula Belmonte afirmou que pretende auditar o Iges-DF, mudar o modelo de livre nomeação e fortalecer o SUS, além de dizer ser contrária à expansão do instituto.
Nesse ponto, existe outro dado que não pode ser ignorado.
Em abril de 2026, o MPCDF informou que, segundo dados apresentados pela SES-DF, o programa de trabalho relacionado aos repasses ao Iges-DF apresentava déficit de 25,26% para 2026. O órgão também informou que os repasses acumulados ao instituto desde 2018 superavam R$ 7 bilhões e que o contrato já havia passado por 63 termos aditivos.
Portanto, discutir o futuro do Iges-DF exige mais do que dizer se o instituto deve ou não crescer.
É preciso discutir modelo de gestão, financiamento, metas, contratos, indicadores, fiscalização, prestação de contas e capacidade de execução.
A saúde precisa de propostas — e de memória de cálculo
Paula Belmonte tem o direito de apresentar suas propostas para a saúde do Distrito Federal e o eleitor tem o direito de conhecê-las.
Mas uma proposta de governo na área da saúde precisa responder a uma pergunta que não cabe apenas no discurso eleitoral:
de onde virá o dinheiro e como o serviço será sustentado depois de inaugurado?
A discussão sobre 40 novas UBSs, portanto, não deveria terminar na promessa de construção.
Deveria começar pela planilha.
Porque, no SUS, o prédio pode ser inaugurado uma vez. A folha, o medicamento, o profissional, o contrato de manutenção e o atendimento ao paciente precisam ser pagos todos os meses.
E é justamente aí que uma proposta de expansão da rede deixa de ser apenas uma promessa eleitoral e passa a ser um plano de governo.




