
A privatização, tema que dividiu o Brasil durante décadas, volta ao centro do debate eleitoral de 2026. Mas, diferente dos anos 1990, quando a venda de empresas estatais era apresentada como símbolo de modernização econômica, a disputa atual será mais complexa: poucos candidatos defenderão abertamente a palavra “privatização”, enquanto a maioria deverá apostar em concessões, parcerias público-privadas e discursos sobre eficiência do Estado.
A pergunta que estará no centro da eleição presidencial será uma das mais antigas da política brasileira: qual deve ser o tamanho do Estado na economia?
Desde o amplo programa de desestatização conduzido durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, na década de 1990, a privatização se tornou uma das maiores marcas da divisão ideológica do país. Empresas como Vale e o Sistema Telebrás foram transferidas para a iniciativa privada, em uma mudança profunda no papel do Estado brasileiro.
Nos governos seguintes, o modelo foi alterado
As administrações de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff interromperam a agenda de privatizações clássicas, mas ampliaram concessões em áreas como aeroportos, rodovias, ferrovias e exploração de petróleo. Já o governo Jair Bolsonaro retomou o discurso liberal com o ministro Paulo Guedes e promoveu a privatização da Eletrobras, embora tenha enfrentado resistência para avançar sobre empresas estratégicas como Petrobras e Banco do Brasil.
Em 2026, o debate retorna com novos contornos

Mais do que simplesmente defender “privatizar ou não privatizar”, os candidatos terão de responder como pretendem financiar investimentos, melhorar serviços públicos, controlar gastos e definir quais setores devem permanecer sob controle estatal.
Lula: Estado forte e participação privada seletiva
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, dificilmente transformará a privatização em uma bandeira de campanha.
Sua trajetória política está associada à defesa do Estado como indutor do desenvolvimento econômico, especialmente em áreas consideradas estratégicas. A manutenção de grandes empresas públicas e o fortalecimento de bancos estatais fazem parte dessa visão.
Isso não significa rejeição absoluta ao setor privado. Durante os governos petistas, houve concessões importantes de infraestrutura e abertura para investimentos privados, mas a venda definitiva de grandes estatais nunca esteve no centro do projeto político.
Com Geraldo Alckmin (PSB) como vice, Lula busca ampliar o diálogo com setores do centro, mas sem alterar sua visão sobre o papel do Estado na economia.
Flávio Bolsonaro: liberalismo econômico com limites políticos
Flávio Bolsonaro (PL), principal nome da oposição, deverá carregar parte do legado econômico do governo Jair Bolsonaro, marcado pela agenda liberal defendida por Paulo Guedes.
A redução do tamanho do Estado, a desburocratização, a abertura econômica e a transferência de ativos para a iniciativa privada devem aparecer como pontos de seu programa.
Entretanto, a experiência do governo Bolsonaro revelou um obstáculo: privatizações de grandes empresas consideradas estratégicas enfrentam forte resistência política e social.
Por isso, uma eventual gestão de Flávio Bolsonaro provavelmente teria maior espaço para concessões, venda de ativos específicos e redução da participação estatal em determinados setores, mas enfrentaria desafios para repetir uma ampla onda de privatizações.
Romeu Zema: a privatização como bandeira central
Entre os candidatos apresentados, Romeu Zema (NOVO) é o nome mais diretamente associado à defesa da privatização.
O partido NOVO construiu sua identidade política em torno da redução do tamanho do Estado, equilíbrio fiscal, livre mercado e menor intervenção governamental.
Durante sua gestão em Minas Gerais, Zema defendeu avanços em concessões e privatizações, especialmente em empresas estaduais, enfrentando resistências políticas.
Na corrida presidencial, sua candidatura tende a representar a defesa mais clara da agenda liberal clássica: menos Estado empresário e maior participação da iniciativa privada na economia.
Ronaldo Caiado: Estado estratégico, não Estado mínimo

Ronaldo Caiado (PSD) apresenta uma posição diferente dentro do campo da direita e da centro-direita.
Embora defenda eficiência administrativa, responsabilidade fiscal e maior participação privada em setores onde isso possa gerar resultados, o candidato não pretende transformar a privatização em uma bandeira geral.
Sua posição sobre a Petrobras deixa clara essa diferença.
Caiado defende a manutenção da companhia como empresa estatal e a ampliação do parque de refino brasileiro. Para ele, a construção de novas refinarias é necessária para reduzir a dependência do país da importação de óleo diesel, especialmente diante da importância estratégica do combustível para o agronegócio e para a economia nacional.
A posição coloca Caiado distante do liberalismo econômico mais radical. Sua visão é de um Estado estratégico: privatizar ou conceder onde houver ganho de eficiência, mas preservar empresas consideradas fundamentais para a soberania econômica.
Renan Santos: liberalismo econômico em versão MBL
Renan Santos (Missão), integrante do Movimento Brasil Livre (MBL), representa uma das posições mais liberais da disputa.
Sua trajetória política está ligada à defesa de reformas estruturais, redução da máquina pública, livre mercado e privatizações.
Embora sua estrutura partidária seja menor em comparação aos principais concorrentes, ele tende a ser um dos candidatos mais explícitos ao defender a transferência de empresas e serviços para a iniciativa privada.
Sua candidatura deverá explorar justamente o eleitor que considera o Estado brasileiro grande demais, caro e pouco eficiente.
A disputa não será apenas entre Estado e mercado
A eleição de 2026 dificilmente repetirá o debate simplificado das décadas anteriores.
A discussão não será apenas sobre vender ou manter empresas públicas, mas sobre quais áreas exigem presença estatal e onde a iniciativa privada pode entregar melhores resultados.
A pergunta central será:
- quais empresas devem permanecer sob controle público;
- onde concessões podem ampliar investimentos;
- quais serviços podem ser administrados pela iniciativa privada;
- e como equilibrar responsabilidade fiscal com qualidade dos serviços oferecidos à população.
No fim, a privatização será menos uma questão econômica e mais um teste político.
Para alguns candidatos, representa modernização e eficiência. Para outros, significa perda de patrimônio nacional e redução da capacidade do Estado de atuar em áreas estratégicas.
A história brasileira mostra que nenhum governo consegue implementar sua visão econômica apenas com discurso. É preciso apoio político, segurança jurídica e capacidade de convencer uma sociedade que oscila entre desejar um Estado forte e cobrar serviços públicos mais eficientes.
Em 2026, a grande disputa não será apenas sobre quem quer privatizar. Será sobre quem terá coragem de dizer claramente qual Estado pretende entregar ao Brasil.




