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sábado, setembro 5, 2026
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Segurança hídrica exige planejamento: Adasa alerta que reservatórios cheios não autorizam desperdício no DF

Raimundo Ribeiro defende planejamento permanente, preservação dos mananciais e uso racional da água para evitar que Brasília volte a enfrentar uma crise de abastecimento

O Distrito Federal atravessa um momento de maior segurança no abastecimento de água, mas a situação confortável dos reservatórios não significa que o alerta possa ser desligado. Essa foi uma das principais mensagens deixadas pelo diretor-presidente da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa), Raimundo Ribeiro, durante entrevista ao programa Vozes da Comunidade, apresentado pelo jornalista Toni Duarte nesta sexta-feira (4).

Ao avaliar a situação dos principais reservatórios que abastecem Brasília, Ribeiro destacou que os níveis atuais são significativamente superiores aos registrados no mesmo período do ano passado.

“Se nós formos comparar este ano com o ano passado, os nossos reservatórios estão com uma carga muito maior”, afirmou.

O Reservatório do Descoberto registra atualmente 85,3% do volume útil, enquanto o Sistema Santa Maria chega a 92,2%, nível considerado pela Adasa como estado hidrológico pleno.

Os números representam uma condição favorável para o abastecimento do Distrito Federal. Mas, para o presidente da agência reguladora, justamente os períodos de maior tranquilidade devem ser utilizados para planejar o futuro — e não para relaxar nos cuidados com a água.

Reservatórios cheios não significam água infinita

Ribeiro fez questão de diferenciar tranquilidade momentânea de segurança hídrica permanente.

“Isso pode nos trazer tranquilidade? Evidentemente que nos dá uma certa tranquilidade, mas isso não faz com que a gente deixe de se preocupar, porque a água é um bem finito”, afirmou.

A mensagem é direta: água disponível hoje não significa água garantida amanhã.

Por isso, consumidores residenciais, produtores rurais e demais usuários precisam manter hábitos de consumo consciente, reduzindo desperdícios e utilizando os recursos hídricos de forma racional.

O planejamento também precisa considerar os ciclos de chuva e estiagem, que não obedecem ao calendário civil. Para a Adasa, a segurança hídrica deve ser construída continuamente, inclusive durante os períodos em que os reservatórios apresentam níveis confortáveis.

Descoberto e Santa Maria estão acima de 2025

A comparação com o ano passado reforça o cenário favorável.

Segundo os dados apresentados durante a entrevista, o volume armazenado no Descoberto está aproximadamente 8 pontos percentuais acima do registrado no mesmo período de 2025. No Sistema Santa Maria, a diferença chega a cerca de 21 pontos percentuais.

O Distrito Federal também apresenta uma ampla cobertura da rede de abastecimento. De acordo com Ribeiro, aproximadamente 99% da população é atendida pelo sistema, que tem participação direta da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb).

Para o presidente da Adasa, preservar essa estrutura exige mais do que responder a emergências: exige antecipar problemas.

A lição deixada pelo racionamento

Ribeiro também revisitou a crise hídrica enfrentada pelo Distrito Federal entre 2016 e 2018, período marcado pelo racionamento de água.

Ao falar sobre aquele momento, o presidente da Adasa criticou a administração do então governador Rodrigo Rollemberg e atribuiu à gestão, segundo sua avaliação, a demora na adoção de medidas preventivas.

“Aquilo podia ter sido evitado se o governo não tivesse como marca a preguiça”, declarou.

A crítica, porém, foi utilizada por Ribeiro para defender uma conclusão mais ampla: crises de abastecimento não devem ser enfrentadas apenas quando já chegaram às torneiras da população.

Segundo ele, depois daquele período, a Adasa passou a trabalhar com planejamento de curto, médio e longo prazo, reforçando o monitoramento e a integração entre os órgãos responsáveis pelos recursos hídricos.

A experiência do racionamento, nessa perspectiva, deixou uma lição: segurança hídrica se constrói antes da emergência.

Brasília, o “berço das águas”

Outro ponto destacado na entrevista foi a importância ambiental do Distrito Federal.

“Brasília é o berço das águas”, afirmou Ribeiro.

A posição geográfica da capital, marcada por importantes áreas de nascentes e pela presença de bacias hidrográficas que contribuem para diferentes regiões do país, reforça a necessidade de políticas permanentes de preservação dos mananciais.

Nesse contexto, proteger nascentes, conservar as bacias e preservar áreas de recarga deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a integrar a própria estratégia de abastecimento da população.

Chuva não pode ser tratada como desperdício

Ribeiro também defendeu uma mudança na forma como o Distrito Federal encara a água das chuvas.

Para ele, é necessário avançar em políticas de captação, armazenamento, tratamento e utilização da água pluvial.

“A gente tem que receber, captar, recepcionar, armazenar, tratar para poder distribuir”, afirmou.

A proposta vai além de simplesmente armazenar água para períodos de estiagem. O aproveitamento adequado das chuvas pode contribuir para reduzir desperdícios, ampliar a disponibilidade hídrica e diminuir os impactos provocados por grandes volumes de precipitação.

Isso exige investimentos em infraestrutura — inclusive em obras que muitas vezes não possuem grande visibilidade, mas que são essenciais para o planejamento urbano, ambiental e hídrico.

Planejar hoje para não racionar amanhã

Ao longo da entrevista, Raimundo Ribeiro defendeu que a administração pública não pode ficar condicionada exclusivamente ao calendário eleitoral.

Para ele, investimentos em infraestrutura, preservação ambiental e segurança hídrica precisam ultrapassar os ciclos políticos.

“Você tem que trabalhar. Você foi eleito para fazer um trabalho”, afirmou, ao criticar o que considera uma preocupação excessiva de parte dos agentes públicos com a reeleição.

A lógica defendida pelo presidente da Adasa é simples: o custo da prevenção pode ser muito menor do que o custo de uma nova crise.

A segurança hídrica, portanto, depende de reservatórios em boas condições, mas também de planejamento, investimentos, preservação ambiental, infraestrutura, monitoramento e participação da sociedade.

Uma responsabilidade que não termina quando a chuva chega

Os números atuais permitem ao Distrito Federal respirar com mais tranquilidade. Descoberto e Santa Maria apresentam níveis elevados, e o abastecimento alcança praticamente toda a população.

Mas a principal mensagem da entrevista não foi de acomodação.

Foi justamente o contrário.

Quanto maior a segurança de hoje, maior deve ser a responsabilidade de preparar o amanhã.

A água precisa ser preservada quando os reservatórios estão cheios para que esteja disponível quando a chuva faltar.

Essa é a lógica da segurança hídrica: não esperar a crise para começar a agir.

A entrevista de Raimundo Ribeiro foi transmitida pelo Vozes da Comunidade, apresentado pelo jornalista Toni Duarte, com retransmissão por rádios comunitárias do Distrito Federal e do Entorno.