

Da promessa de “obsessão pela saúde” ao passivo deixado por uma organização social contratada durante seu governo, o histórico do Hospital Regional de Santa Maria expõe uma contradição que não pode ser ignorada na campanha de 2026
José Roberto Arruda [PSD] voltou a apresentar a saúde como sua principal bandeira eleitoral. Em sabatina nesta segunda-feira (17), no Balanço Geral DF, o candidato prometeu reduzir gastos, ampliar a rede hospitalar e afirmou que a área será sua “prioridade” e sua “obsessão”.
A promessa, entretanto, esbarra em um capítulo do próprio histórico administrativo de Arruda que permanece registrado nos órgãos de controle: a implantação do modelo de gestão por organização social no Hospital Regional de Santa Maria [HRSM], durante seu governo, resultou em uma longa sequência de questionamentos, intervenção do poder público e processos de tomada de contas.
No centro dessa história está a Real Sociedade Espanhola de Beneficência [OSRSEB], contratada pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal para organizar e operar os serviços do HRSM por meio do Contrato de Gestão nº 001/2009. O ajuste foi firmado durante o governo Arruda. Documentos do Tribunal de Contas do Distrito Federal [TCDF – Processo 16452/2019-e] registram que a contratação, inclusive, foi objeto de questionamentos relacionados à legalidade e à economicidade.
O resultado conhecido anos depois é particularmente incômodo para quem hoje se apresenta como solução para os problemas da saúde pública.
Em junho de 2026, o TCDF determinou que a Real Sociedade Espanhola de Beneficência devolva R$ 54,7 milhões aos cofres públicos, em razão de prejuízos identificados na execução do contrato de gestão do Hospital Regional de Santa Maria. Segundo o Tribunal, a apuração encontrou pagamentos indevidos, despesas sem cobertura contratual e falhas na comprovação da aplicação dos recursos públicos.
Entre os problemas apontados aparecem despesas relacionadas à contratação emergencial de ambulância com motorista, serviços de software, rateio de pessoal, encargos trabalhistas e contribuições sindicais, além de gastos realizados por meio de suprimento de fundos sem comprovação adequada.

A lista inclui ainda multas por atraso no recolhimento de tributos, despesas de condomínio e locação de mesas e cadeiras sem previsão contratual ou justificativa considerada adequada pelo controle externo.
O episódio não terminou apenas em uma cobrança financeira.
Em 2010, após problemas financeiros e irregularidades na execução do contrato — inclusive paralisação de serviços por falta de repasses — o Governo do Distrito Federal interveio na administração do Hospital Regional de Santa Maria. A gestão foi posteriormente devolvida à Secretaria de Saúde, em abril de 2011.
A história ganhou novo capítulo em março de 2026, quando o próprio TCDF determinou que a organização devolvesse outros R$ 17,596 milhões, valor atualizado até outubro de 2025, em uma tomada de contas especial que apontou ausência de prestação de contas e falhas na comprovação da aplicação regular de recursos públicos. Nesse processo, o Tribunal registrou que a entidade havia declarado judicialmente não ter condições de quitar o débito.
O dado mais relevante para a campanha de 2026, portanto, não é apenas o tamanho dos valores envolvidos. É a distância entre o discurso atual e o retrospecto administrativo.
Arruda agora promete “redução de gastos”, posse imediata de concursados e a construção de cinco novos hospitais, além de defender mudanças no modelo de gestão da saúde.
Mas antes de perguntar quantos hospitais serão construídos, a pergunta que o eleitor pode fazer é outra: o que aconteceu com o modelo de gestão da saúde que foi implantado durante seu governo?
O caso do HRSM oferece uma resposta documentada pelos órgãos de controle.
A contratação da organização social ocorreu no governo Arruda. O contrato foi posteriormente marcado por problemas, intervenção estatal, falhas de prestação de contas e processos de responsabilização. E, anos depois, o TCDF chegou a determinar ressarcimentos milionários aos cofres públicos.
Isso não significa atribuir pessoalmente a Arruda cada irregularidade posteriormente identificada na execução do contrato — a responsabilização determinada pelo TCDF recai sobre a organização social e os responsáveis definidos nos respectivos processos. Mas significa que a experiência administrativa associada à gestão do HRSM durante seu governo faz parte, necessariamente, do currículo que acompanha sua atual promessa de comandar novamente a saúde do Distrito Federal.
É justamente aí que a imagem do candidato que se apresenta como “salvador da saúde” encontra seu contraponto documental.
A campanha pode prometer novos hospitais. Os registros públicos, porém, obrigam o eleitor a olhar também para os hospitais e modelos de gestão do passado.
E, no caso do Hospital Regional de Santa Maria, o passado ainda tem uma conta milionária para ser cobrada.



