Governadora defende prontuário eletrônico unificado, anuncia 13 tomógrafos e sete novas UPAs, mas reconhece dificuldades para contratar profissionais e organizar as filas do SUS
A saúde pública do Distrito Federal enfrenta problemas que vão além da falta de vagas para consultas, exames e cirurgias. Falhas na integração dos sistemas, déficit de profissionais e dificuldades na regulação de pacientes estão entre os desafios reconhecidos pela governadora Celina Leão (PP).
Em entrevista nesta sexta-feira (25) ao programa Vozes da Comunidade, apresentado por Toni Duarte, a governadora afirmou que a rede pública ainda não dispõe de integração adequada entre suas unidades. Para enfrentar o problema, o Governo do Distrito Federal (GDF) está licitando um prontuário eletrônico unificado, que deverá permitir o compartilhamento das informações dos pacientes desde a atenção primária até os hospitais de alta complexidade.
A proposta busca reduzir a fragmentação dos atendimentos e facilitar o acompanhamento clínico. Na prática, a integração poderá permitir que as equipes de saúde tenham acesso ao histórico do paciente, diminuindo a repetição de procedimentos e contribuindo para a continuidade do tratamento.
Falhas na regulação dificultam atendimento
Um dos problemas apontados por Celina é a chamada “fila suja”, expressão utilizada para descrever distorções nos registros da regulação.
Segundo a governadora, o sistema perde tempo tentando localizar pacientes que mudaram de telefone, deixaram de precisar do procedimento ou conseguiram atendimento na rede privada.
A situação evidencia um desafio para a gestão: manter as filas atualizadas e garantir que as vagas disponíveis sejam destinadas a quem ainda precisa do atendimento.
Celina também criticou promessas de zerar as filas da saúde. Para ela, a demanda é contínua e varia diariamente, tornando inviável garantir a eliminação permanente de todas as esperas.
A governadora defendeu que o objetivo seja estabelecer um “tempo digno de espera”, considerando a gravidade de cada caso.
O desafio, nesse cenário, é assegurar que a organização da regulação se traduza em redução efetiva do tempo de espera, especialmente para pacientes que dependem de consultas especializadas, exames e cirurgias.
Falta de médicos limita capacidade da rede
O déficit de profissionais foi apontado como um dos principais obstáculos à ampliação dos serviços.
Celina afirmou que, mesmo após a nomeação de aproximadamente 1.900 médicos durante a gestão, o governo enfrenta dificuldades para competir com o mercado privado.
O cenário foi evidenciado no último concurso destinado à atenção primária. Das 114 vagas abertas para médicos, apenas 34 candidatos aceitaram tomar posse, segundo os números apresentados pela governadora.
Diante da dificuldade de preencher os postos, Celina defendeu uma revisão do plano de cargos e salários da categoria.
A medida, segundo a proposta apresentada, busca tornar as condições oferecidas pelo serviço público mais atrativas para os profissionais.
A insuficiência de médicos representa um desafio que não se resolve apenas com a abertura de concursos. A capacidade de atrair e manter profissionais também influencia o funcionamento das unidades e o acesso da população aos serviços.
SUS Candango amplia atendimento na rede privada
Como alternativa para acelerar o acesso a procedimentos, o GDF recorreu à contratação de serviços da rede privada por meio do programa SUS Candango.
De acordo com o balanço apresentado por Celina, foram realizadas aproximadamente 200 mil consultas e mil cirurgias na rede complementar.
A estratégia busca ampliar a oferta de atendimentos de média e baixa complexidade, reduzindo a pressão sobre a estrutura pública.
O resultado, entretanto, precisa ser acompanhado por indicadores que permitam avaliar quantos pacientes aguardavam pelos procedimentos, quanto tempo esperaram e qual foi o impacto das contratações sobre as filas da rede pública.
R$ 100 milhões para reformas e novos tomógrafos
Na infraestrutura, a governadora anunciou a previsão de R$ 100 milhões para reformas e aquisição de 13 novos tomógrafos.
Segundo Celina, cerca de 500 pacientes por mês precisavam ser transportados de ambulância entre unidades de saúde para realizar exames de imagem.
A proposta é que cada hospital regional tenha seu próprio equipamento, reduzindo deslocamentos e facilitando o acesso aos exames.
A medida poderá contribuir para diminuir o tempo gasto no transporte de pacientes e melhorar a utilização das ambulâncias, especialmente nos casos em que o deslocamento entre hospitais compromete a logística do atendimento.
A efetividade do anúncio dependerá, contudo, da aquisição, instalação e entrada em funcionamento dos equipamentos, além da disponibilidade de profissionais para operá-los.
Hospital de Base terá reforma na cozinha
Celina também relatou a intervenção realizada na cozinha do Hospital de Base do Distrito Federal após tomar conhecimento, pela televisão, das condições do espaço.
Segundo a governadora, ela foi pessoalmente ao local e determinou o fechamento do setor para a realização das obras.
Uma estrutura provisória já está em funcionamento na área externa do hospital. A previsão apresentada é de que a reforma definitiva seja concluída em 45 dias.
A intervenção envolve uma área essencial ao funcionamento hospitalar, já que a produção e a distribuição de refeições integram a assistência aos pacientes internados.
O cumprimento do prazo anunciado será um dos pontos a serem acompanhados pela população.
GDF promete sete novas UPAs
Na rede de urgência e emergência, a governadora anunciou a previsão de entrega de sete novas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Cinco delas, segundo o cronograma apresentado, devem ser entregues ainda este ano.
Entre as regiões mencionadas estão Águas Claras, Taguatinga, Águas Quentes e Estrutural.
De acordo com Celina, a expansão deverá ampliar a capacidade de atendimento para aproximadamente 700 mil pessoas.
A abertura das unidades poderá ampliar a oferta de atendimento de urgência, mas o funcionamento efetivo dependerá também da contratação de equipes, do abastecimento de insumos e da estrutura necessária para atender à demanda.
Regulação de leitos será integrada a Goiás
A governadora confirmou ainda que o sistema de regulação de leitos do Distrito Federal está sendo integrado ao de Goiás, por determinação do Ministério Público.
A iniciativa busca organizar o fluxo de pacientes provenientes do Entorno, região que mantém uma relação direta com a rede de saúde do DF.
A integração entre os sistemas poderá contribuir para ordenar os encaminhamentos e melhorar a gestão das vagas hospitalares.
O resultado dependerá da coordenação entre os governos, da disponibilidade de leitos e da definição dos fluxos de atendimento.
Entre os anúncios e a entrega
As medidas apresentadas por Celina Leão abrangem diferentes frentes: modernização tecnológica, contratação de profissionais, ampliação da rede física e utilização de serviços privados para acelerar procedimentos.
Os anúncios, porém, estão em estágios distintos. O prontuário eletrônico está em processo de licitação; os novos tomógrafos e as reformas dependem de execução; e as novas UPAs têm cronogramas de entrega anunciados pelo governo.
O principal indicador de resultado será a capacidade dessas iniciativas de melhorar o atendimento na ponta: reduzir o tempo de espera, ampliar o acesso a exames e consultas, garantir equipes completas e evitar deslocamentos desnecessários de pacientes.
Para quem depende do Sistema Único de Saúde (SUS), a modernização anunciada só terá impacto concreto quando se transformar em atendimento mais rápido, contínuo e acessível.



