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BRB leva caso Master aos acionistas e abre caminho para cobrar 12 ex-administradores – que venham ser identificados como responsáveis

Ex-presidente do BRB, atualmente preso, Paulo Henrique Costa. Foto: Reprodução

Assembleia em 24 de agosto decidirá se banco poderá adotar medidas judiciais contra antigos gestores que forem identificados como responsáveis por danos nas operações com o ecossistema Master/REAG; decisão ocorre em meio à crise financeira que levou o DF a buscar R$ 6,6 bilhões

O caso Banco Master entra em uma nova e decisiva etapa no Banco de Brasília [BRB). Em meio à crise financeira provocada pelas operações realizadas com o ecossistema Master/REAG e às investigações da Operação Compliance Zero, o banco convocou os acionistas para uma Assembleia Geral Extraordinária, em 24 de agosto, para deliberar sobre a possibilidade de responsabilizar judicialmente ex-administradores que venham a ser identificados como responsáveis por eventuais prejuízos.

A medida transforma a discussão sobre as operações em uma questão direta de responsabilidade patrimonial: caso as apurações concluam que antigos gestores contribuíram, por ação ou omissão, para danos ao banco, o BRB poderá buscar na Justiça a reparação dos valores.

O edital, contudo, não aponta culpados nem estabelece previamente quem será processado. A autorização pretendida é direcionada aos ex-administradores que forem individualmente identificados como responsáveis pelos danos. A diferença é relevante porque eventual responsabilização civil dependerá da demonstração da conduta, do dano e do nexo entre a atuação do administrador e o prejuízo.

A AGE está marcada para as 10h do dia 24, em formato exclusivamente digital.

Da apuração à cobrança

A convocação representa uma mudança importante na estratégia do BRB.

Até aqui, o centro da crise estava concentrado na apuração das operações realizadas com o Banco Master e nas consequências financeiras para a instituição. Agora, o banco coloca em discussão quem poderá eventualmente ser chamado a responder pelo prejuízo.

A redação do edital é cuidadosa ao mencionar ex-administradores que, “por ação ou omissão”, venham a ser identificados como responsáveis.

Isso significa que a eventual responsabilização não deverá decorrer simplesmente do fato de alguém ter ocupado um cargo de direção no período das operações. Será necessário individualizar condutas e demonstrar que determinada decisão, procedimento ou omissão teve relação com o dano atribuído ao banco.

A medida também alcança uma dimensão que vai além do balanço financeiro. O BRB afirma que pretende proteger e recuperar seu patrimônio social e moral, além de cumprir deveres de governança e transparência perante os acionistas.

Crise do BRB chega ao centro da disputa institucional

Banco de Brasília [BRB]
O Banco já contratou, desde 2019, mais de 1.200 novos empregados por meio de seis concursos públicos | Foto: Divulgação/BRB

A decisão ocorre em um dos momentos mais delicados da história recente do banco.

O BRB está no centro de uma crise que levou o governo do Distrito Federal a buscar uma operação de R$ 6,6 bilhões para reforçar a instituição. Nesta sexta-feira (14), o ministro Luiz Fux afirmou, após audiência no Supremo Tribunal Federal, que o Judiciário não pretende obrigar bancos ou a União a fornecerem garantias para o empréstimo. O impasse envolve o governo do DF, o Banco Central, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), a União e instituições financeiras.

A crise, portanto, já ultrapassou os limites de uma controvérsia entre instituições financeiras.

O que está em discussão é a capacidade do BRB de absorver perdas, recompor sua estrutura financeira e preservar a confiança de acionistas e clientes sem transferir integralmente o custo da crise para outras instituições ou para o poder público.

Nesse cenário, a eventual recuperação judicial de valores de responsáveis pelas operações passa a ter importância econômica concreta.

O que os acionistas estarão autorizando

A votação não significa que o BRB receberá dinheiro imediatamente, tampouco representa uma condenação antecipada de antigos administradores.

Se aprovada, a medida dará respaldo societário para que o banco adote as providências judiciais cabíveis contra aqueles que forem apontados pelas apurações como responsáveis.

A partir daí, poderão surgir ações de responsabilidade civil, medidas destinadas à preservação de patrimônio e outras providências jurídicas destinadas à recuperação de valores, conforme as conclusões das investigações e a estratégia definida pelo banco.

O resultado, entretanto, dependerá da Justiça

Uma ação de responsabilidade civil não transforma automaticamente um prejuízo contábil em indenização. O BRB precisará demonstrar, em cada caso, quem praticou determinada conduta, qual dever teria sido violado, qual dano foi produzido e qual é a relação entre a conduta e o prejuízo.

O caso Master e a dimensão do problema

A Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, investiga suspeitas relacionadas às operações do Banco Master e a uma complexa rede de relações financeiras e empresariais.

As investigações tiveram repercussões diretas sobre o BRB. Reportagens recentes apontam que operações envolvendo carteiras de crédito adquiridas pelo banco passaram a ser objeto de questionamentos e investigações.

O caso ganhou uma dimensão ainda maior com o avanço das apurações sobre possíveis fraudes no sistema financeiro.

Nesta semana, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, prestou depoimento à Polícia Federal e relatou suspeitas e resistências internas durante a fiscalização de operações relacionadas ao BRB e ao Master. Segundo o relato divulgado pela imprensa, ele afirmou ter identificado movimentações que levantaram suspeitas sobre a qualidade das carteiras de crédito.

Os novos elementos ampliam a pressão para que sejam esclarecidas não apenas as operações realizadas, mas também as circunstâncias que permitiram sua aprovação e execução.

A pergunta que agora chega aos acionistas

A AGE coloca uma questão que pode se tornar central na reconstrução do BRB:

se houve prejuízo causado por decisões ou omissões de administradores, quem deve arcar com essa conta?

A resposta interessa diretamente aos acionistas.

Em uma sociedade anônima, uma perda patrimonial significativa reduz o valor da companhia e pode comprometer sua capacidade de investimento, crédito e expansão. Quando o controlador é um ente público, como ocorre com o BRB, o problema ganha ainda uma dimensão institucional.

Por isso, a tentativa de recuperar judicialmente recursos eventualmente perdidos não deve ser interpretada apenas como uma disputa entre a atual e antigas administrações.

Trata-se, em última análise, de uma tentativa de impedir que um eventual dano permaneça integralmente dentro do patrimônio da instituição.

Não é uma condenação antecipada

Há, porém, um limite que o próprio edital estabelece e que precisa ser preservado.

O BRB não acusa nominalmente os ex-administradores.

A companhia pretende obter autorização para processar aqueles que venham a ser identificados como responsáveis depois das apurações.

Essa distinção é especialmente importante diante da dimensão política e eleitoral que o caso adquiriu em Brasília.

A responsabilização civil exige prova. O fato de um executivo ter participado da administração do banco durante determinado período não é suficiente, por si só, para estabelecer sua responsabilidade pessoal por perdas posteriores.

Da mesma forma, eventual investigação criminal e eventual ação civil possuem naturezas distintas e podem produzir consequências jurídicas diferentes.

Governança em teste

A AGE também funcionará como um teste para a governança do banco.

Ao submeter aos acionistas a possibilidade de buscar judicialmente antigos administradores, o BRB procura institucionalizar uma reação à crise.

A mensagem é clara: eventuais perdas não devem ser simplesmente absorvidas sem que se investigue sua origem e sem que se avalie a possibilidade de responsabilização de quem eventualmente tenha contribuído para produzi-las.

É uma mudança de eixo.

A pergunta deixa de ser apenas “quanto o BRB perdeu?” e passa a incluir outra, ainda mais sensível:

“quem eventualmente deve reparar o dano?”

Essa segunda pergunta pode levar anos para ser respondida definitivamente.

Mas, pela primeira vez, o próprio BRB está colocando formalmente a possibilidade de cobrança judicial dos responsáveis no centro de sua estratégia.

A crise agora tem duas contas

A primeira é financeira: quanto o BRB perdeu, quanto ainda poderá perder e quanto será necessário para recompor sua estrutura de capital.

A segunda é institucional: quem tomou as decisões, quais controles funcionaram ou falharam, quais alertas existiam e se alguém poderá ser responsabilizado por eventuais danos.

As duas contas estão relacionadas, mas não são iguais.

O pedido de R$ 6,6 bilhões em socorro financeiro evidencia a dimensão imediata do problema. A AGE de 24 de agosto aponta para uma segunda frente: a tentativa de fazer com que eventuais responsáveis pelo dano também respondam patrimonialmente por suas consequências.

O resultado da assembleia não encerrará o caso Master.

Mas poderá determinar o próximo capítulo da crise do BRB: aquele em que a instituição deixa de apenas contabilizar as perdas e passa a buscar, judicialmente, quem eventualmente deverá repará-las.

A Assembleia Geral Extraordinária do BRB será, portanto, menos uma formalidade societária do que um divisor de águas na crise.