
Bastidor
Não há nada de errado em um parlamentar procurar o atendimento médico que considera mais adequado diante de um AVC. Saúde não deveria ser submetida a ideologia, partido ou preferência política.
O ponto que provoca o debate é outro.
Uczai é líder do PT na Câmara, partido que historicamente coloca o fortalecimento do Sistema Único de Saúde no centro de seu discurso político. Quando a emergência chegou, entretanto, o parlamentar foi levado para o DF Star, hospital privado de Brasília.
A escolha é legítima. A contradição política está na distância entre o Brasil idealizado nos discursos e o Brasil real enfrentado por milhões de brasileiros quando precisam de atendimento médico.
Para quem tem acesso à rede privada, uma emergência pode significar ambulância, diagnóstico por imagem, equipe especializada e internação em estrutura de alta complexidade. Para o cidadão que depende exclusivamente do SUS, a experiência pode ser marcada por espera, superlotação e dificuldade de acesso a especialistas — embora o sistema também realize atendimentos de excelência e seja indispensável para milhões de brasileiros.
É justamente aí que o episódio de Uczai ganha dimensão política.
Se um líder partidário procura o setor privado quando sua própria vida está em jogo, a pergunta incômoda não deveria ser por que ele fez isso, mas por que o SUS ainda não consegue oferecer a todos os brasileiros a mesma sensação de segurança e rapidez que a elite política encontra na rede privada.
O deputado merece recuperação plena. O episódio, porém, deixa uma provocação para além do leito hospitalar: o SUS precisa ser defendido não apenas no discurso, mas com recursos, gestão e qualidade suficientes para que o cidadão comum também possa confiar nele quando a emergência chegar.
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