Categoria terá peso eleitoral relevante nas eleições de 2026, mas votação não se transforma automaticamente em cadeiras: partido, federação, quociente eleitoral e desempenho individual serão decisivos

A enfermagem do Distrito Federal entra nas eleições de 2026 com um ativo político que nenhum candidato pode ignorar: 71.091 inscrições ativas, sendo 25.192 enfermeiros e 43.811 técnicos de enfermagem. É um contingente expressivo de profissionais espalhados pela rede pública e privada, hospitais, unidades básicas, UPAs, clínicas e serviços de atendimento, além de suas redes familiares e profissionais.
Mas o tamanho da categoria não significa, por si só, que a enfermagem elegerá determinado número de parlamentares. O desafio de 2026 será transformar presença profissional em voto organizado — e, principalmente, em cadeiras.
Hoje, a categoria possui dois representantes na Câmara Legislativa do Distrito Federal: Jorge Vianna (Democrata) e Dayse Amarilio (PSB). Os dois chegam ao processo eleitoral tentando preservar seus espaços, mas enfrentam uma eleição em que a composição partidária poderá ser tão importante quanto a votação individual.
Vianna busca um novo mandato na CLDF. A mudança partidária realizada durante a janela eleitoral colocou o parlamentar no Democrata e alterou sua posição no tabuleiro de 2026. A filiação ocorreu em março, depois de sua saída do PSD, em movimento que foi associado ao realinhamento político com a pré-candidatura de Celina Leão ao Palácio do Buriti.
A trajetória de Vianna permanece fortemente vinculada à enfermagem. Técnico de enfermagem da Secretaria de Saúde, ex-dirigente sindical e deputado distrital desde 2019, ele construiu sua carreira política justamente a partir da representação da categoria. A própria CLDF registra que sua eleição de 2018 ocorreu com 13.070 votos.
Em 2026, entretanto, a pergunta não é apenas quantos votos Vianna terá. É quanto o partido conseguirá somar e quantas cadeiras essa votação poderá produzir.
A matemática que pode decidir a eleição
Para deputado distrital, o eleitorado apto a votar não é a variável utilizada diretamente para calcular o quociente eleitoral. O que entra na conta são os votos válidos destinados à eleição proporcional.
O Tribunal Superior Eleitoral estabelece que o Quociente Eleitoral (QE) resulta da divisão dos votos válidos pelo número de vagas em disputa. Em 2026, o Distrito Federal terá 24 cadeiras de deputado distrital.
Assim, tomando apenas um exemplo hipotético:
1,5 milhão de votos válidos ÷ 24 cadeiras = QE de 62.500 votos.
Esse número, porém, não determina sozinho quem será eleito.
O sistema proporcional considera a votação dos partidos e das federações e, posteriormente, a votação nominal dos candidatos. Para 2026, a legislação também estabelece a regra de que, na primeira distribuição das cadeiras, partidos ou federações precisam atingir 80% do QE, enquanto há exigência de votação nominal mínima para os candidatos nas condições previstas. As vagas remanescentes obedecem às regras específicas de distribuição das sobras.
É justamente aí que a eleição da enfermagem fica mais complexa.
Um candidato pode ter uma votação individual expressiva e ainda assim depender do desempenho de sua legenda para transformar votos em mandato.
Dayse Amarilio enfrenta uma disputa diferente
Dayse Amarilio também chega a 2026 com o desafio de defender seu espaço na CLDF. Enfermeira e deputada distrital, mantém a enfermagem entre as principais bandeiras de seu mandato, ao lado de saúde, educação, mulher, concurso e assistência social.
O cenário, entretanto, pode ficar mais apertado com o surgimento de novos nomes oriundos da própria área da saúde.
Entre eles está Alessandro Cardoso, que começa a aparecer como um nome que corre por fora. Técnico de enfermagem do Hospital Regional do Gama, com mais de duas décadas de atuação na saúde pública, Cardoso vem buscando espaço político justamente a partir da experiência acumulada dentro da rede.

A eventual candidatura de um nome com forte inserção na base da enfermagem pode produzir uma consequência direta: fragmentar votos que tradicionalmente poderiam ser canalizados para os atuais representantes da categoria.
E, em uma eleição proporcional, fragmentação é uma palavra que pesa.
Marcos Wesley e Josy Jacob miram Brasília
A disputa não ficará restrita à CLDF.
Marcos Wesley (PP) e Josy Jacob (MDB) aparecem em outra frente: a corrida por uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Nesse caso, a matemática muda completamente. Não se trata das 24 cadeiras da CLDF, mas da disputa pelas vagas de deputado federal destinadas ao Distrito Federal.
Os dois poderão alcançar votação significativa dentro da enfermagem, mas uma votação expressiva não significa necessariamente eleição. O resultado dependerá da força das respectivas legendas, do desempenho de suas chapas e da distribuição das cadeiras pelo sistema proporcional.
Por isso, uma hipótese de boa votação acompanhada de primeira suplência é possível, mas não pode ser tratada antecipadamente como resultado definido.
O verdadeiro teste para a enfermagem
A eleição de 2026 coloca uma questão maior para a categoria.
Com mais de 71 mil inscrições ativas, a enfermagem tem potencial para ser uma das forças organizadas do eleitorado do DF. O problema é saber se esses votos serão concentrados ou pulverizados entre diferentes candidaturas e partidos.
A categoria poderá ter Jorge Vianna, Dayse Amarilio, Alessandro Cardoso, Marcos Wesley, Josy Jacob e outros nomes disputando o mesmo eleitor profissional — ainda que alguns concorram a cargos diferentes.
E isso muda o jogo.
Para a enfermagem, 2026 não será apenas uma eleição de nomes. Será uma eleição de estratégia.
Quem conseguir transformar representação profissional em organização eleitoral terá vantagem. Quem dividir excessivamente sua base poderá descobrir, depois da apuração, que milhares de votos não foram suficientes para produzir uma cadeira.
A pergunta que ficará até outubro não será apenas quem tem mais votos dentro da enfermagem.
Será outra, muito mais decisiva:
quem conseguirá transformar os votos da enfermagem em poder político?
E a resposta passará pelos nomes, mas também — e talvez principalmente — pelos partidos, federações e cálculos da eleição proporcional.




