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terça-feira, setembro 15, 2026
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Celina Leão: mensagem de Vorcaro não comprova participação em negociação do Master com o BRB

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Governadora Celina Leão em prol da política social.

Mensagem atribuída a Daniel Vorcaro menciona Celina em conversa com terceiro, mas material divulgado até agora não apresenta diálogo da governadora com o ex-banqueiro nem documento que demonstre sua participação na negociação

A divulgação de mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro trouxe novamente o nome da governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), para o centro das discussões envolvendo a tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). Mas há uma distinção fundamental entre ser mencionada por um investigado e existir prova documental de participação em uma negociação.

Até o momento, o material divulgado publicamente não apresenta mensagem enviada por Celina Leão a Vorcaro, mensagem de Vorcaro diretamente à governadora, ata de reunião, ligação registrada, documento assinado por ela ou outro elemento apresentado como prova de que Celina tenha participado das tratativas para a compra do Master pelo BRB.

A conversa revelada nesta terça-feira (15) ocorreu em 5 de abril de 2025 entre Vorcaro e o empresário Thiago Miranda. Segundo as reportagens publicadas sobre o conteúdo, Vorcaro fez comentários sobre a posição de Celina, então vice-governadora, em relação ao negócio.

Esse ponto é relevante porque a fonte da afirmação sobre a suposta participação de Celina é o próprio Vorcaro, e não uma comunicação da governadora ou um registro de sua atuação na negociação.

A cronologia também pesa

O calendário dos acontecimentos ajuda a compreender a controvérsia.

Em 28 de março de 2025, o conselho de administração do BRB aprovou a operação que previa a aquisição de 49% das ações ordinárias e a totalidade das ações preferenciais do Banco Master, correspondendo a 58% do capital total da instituição.

Naquele momento, Celina era vice-governadora e Ibaneis Rocha (MDB) ocupava o Palácio do Buriti.

Poucos dias depois, em 5 de abril, surgiu a conversa entre Vorcaro e Thiago Miranda que agora veio a público. Na mesma época, Celina manifestava publicamente oposição à operação.

Segundo a própria governadora, sua posição contrária ao negócio já havia sido externada antes mesmo da deflagração da Operação Compliance Zero. Em entrevista recente, Celina afirmou que era contra a aquisição e que, posteriormente, herdou como governadora a responsabilidade de enfrentar a crise financeira deixada no BRB.

Há, portanto, uma questão central que não pode ser ignorada: se a mensagem pretende demonstrar que Celina participou da negociação, é necessário identificar qual ato concreto dela comprovaria essa participação.

Até aqui, a mensagem divulgada apresenta uma interpretação de Vorcaro sobre a posição política de Celina. Não apresenta, por si só, a atuação dela em uma negociação bancária.

Celina afirma que era contra a compra

A versão apresentada pela governadora é direta: ela nega ter participado de qualquer negociação envolvendo a compra do Master pelo BRB e sustenta que se posicionou contra a operação.

A governadora também voltou a sustentar essa versão em entrevista ao DF1, nesta terça-feira (15), horas antes da divulgação das mensagens.

“Sobre essa situação do BRB, o que se falava à época era que seria bom para o governo, que o banco seria nacionalizado – algo de que eu discordei desde o primeiro momento e fui a público discordar”, declarou.

Em outra entrevista, Celina afirmou ainda que seu nome não aparece no celular de Vorcaro e que, desde o surgimento da tentativa de aquisição, manifestou-se publicamente contra a operação.

Uma afirmação de terceiro não substitui uma prova de participação

O ponto jurídico e jornalístico mais importante está justamente nessa diferença.

Uma mensagem na qual uma pessoa investigada afirma que determinada autoridade participou de uma negociação pode ser relevante para uma investigação, mas não equivale automaticamente à comprovação daquilo que foi afirmado.

É necessário confrontar a declaração com documentos, registros de reuniões, comunicações, depoimentos e demais elementos eventualmente existentes nos autos.

A própria cobertura sobre o caso registra que o material divulgado não apresenta, até o momento, uma comunicação direta entre Celina e Vorcaro que demonstre sua participação na negociação.

Isso não encerra a investigação nem permite concluir antecipadamente o que ocorreu nos bastidores. Mas também impede que uma declaração feita por um dos investigados seja apresentada, isoladamente, como prova definitiva contra a governadora.

Celina passou a administrar o problema depois que a operação avançou

Há ainda uma diferença temporal importante.

A tentativa de aquisição do Master pelo BRB ocorreu durante a gestão de Ibaneis Rocha, quando Celina ainda era vice-governadora. Posteriormente, já no comando do Executivo, Celina passou a lidar com as consequências da crise envolvendo o banco.

Em maio de 2026, por exemplo, o governo de Celina encaminhou à Câmara Legislativa proposta para revogar a autorização legislativa que permitia a aquisição de participação do Master pelo BRB.

Em abril, após a prisão do então ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, Celina também afirmou que seu governo estava colaborando com as investigações e que eventuais responsáveis deveriam responder pelos próprios atos.

Esses acontecimentos não eliminam a necessidade de esclarecer integralmente as decisões tomadas pelo BRB durante o período da operação. Mas demonstram que a atual posição do governo do Distrito Federal diante do caso não pode ser automaticamente confundida com a decisão empresarial tomada pelo banco em 2025.

O que a mensagem prova — e o que não prova

O conteúdo divulgado prova, neste momento, que Daniel Vorcaro falou sobre Celina Leão em uma conversa com outra pessoa.

O que permanece em questão é se existe, nos autos da investigação, algum elemento independente capaz de demonstrar que Celina efetivamente participou das negociações do Master com o BRB.

Essa distinção é essencial para que a discussão pública não transforme uma fala de um investigado em uma conclusão antecipada.

Celina Leão pode e deve responder politicamente por seus atos enquanto agente pública. Da mesma forma, qualquer eventual participação sua em irregularidades deverá ser apurada pelos órgãos competentes.

Mas, até que apareça prova concreta de participação na negociação, a existência de uma mensagem na qual Vorcaro comenta sobre Celina não deve ser confundida com comprovação de que ela tenha negociado a compra do Banco Master.

No caso, a própria cronologia apresenta um elemento que merece ser considerado: enquanto Vorcaro afirmava em uma conversa privada que Celina não estaria fora da operação, a então vice-governadora tornava pública sua discordância em relação ao negócio.

É justamente essa aparente contradição entre o relato de Vorcaro e a posição pública de Celina que precisa ser esclarecida pela investigação — com documentos e fatos, e não apenas com interpretações.

O espaço permanece aberto para manifestação de Daniel Vorcaro, dos demais envolvidos, do BRB e dos órgãos responsáveis pelas investigações.