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segunda-feira, agosto 3, 2026
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Seu senador usa o hospital público? Então pergunte a ele antes de votar

Congresso entra em campo: Câmara registra 636 projetos sobre futebol em apenas um ano e meio. Senado Federal

Há uma pergunta que o eleitor brasileiro deveria fazer a todo candidato ao Senado: quando precisa de atendimento médico, ele procura o hospital público que ajuda a administrar ou dispõe de uma estrutura de saúde própria, custeada, ao menos em parte, pelo dinheiro público?

Não se trata de demonizar o parlamentar por ter assistência médica. Saúde é um direito — inclusive para quem ocupa um mandato eletivo. A questão é outra, muito mais profunda: que distância existe entre quem decide as regras da saúde pública e quem pode se proteger delas?

O Senado Federal mantém um sistema de assistência à saúde para seus parlamentares e dependentes. A própria Casa informa que o atendimento pode envolver serviços médico-hospitalares, ambulatoriais, odontológicos, psicoterápicos, fisioterápicos, obstétricos, de enfermagem e exames, entre outros. Há ainda previsão de assistência para ex-senadores e seus cônjuges.

É justamente aí que começa a reflexão.

Estrutura Remuneratória dos Parlamentares (Demonstrativos Oficiais com Base na LDO).

O cidadão comum enfrenta fila. O senador deveria conhecer essa fila.

O cidadão espera meses por uma consulta especializada. O senador que vota o orçamento da saúde deveria saber o que significa esperar.

O cidadão entra em uma emergência do SUS e muitas vezes precisa lidar com superlotação, falta de profissionais, demora para exames e dificuldades para conseguir um leito. O parlamentar que fiscaliza o Executivo deveria experimentar, ao menos como cidadão, a realidade sobre a qual vota.

Não porque político deva ser privado de assistência médica.

Mas porque o poder público precisa ser compreendido por quem exerce o poder.

Existe uma diferença gigantesca entre defender o SUS em discurso e depender dele quando a saúde aperta.

E essa diferença merece ser discutida sem paixão partidária.

Quanto custa a distância entre o político e o cidadão?

O debate não deveria se resumir a saber se o senador tem plano de saúde.

A pergunta mais incômoda é: por que determinadas categorias do poder público podem ter mecanismos de proteção que o trabalhador brasileiro jamais teria condições de pagar?

E mais: até onde deve ir um benefício criado para proteger o exercício de um mandato?

O mandato termina. A vida parlamentar acaba. O eleitor escolhe outro representante.

Mas quando determinados benefícios podem permanecer depois do fim da atividade política, inclusive alcançando familiares em determinadas condições, surge uma questão republicana incontornável:

um mandato eletivo deve gerar proteção permanente ou deveria terminar junto com o mandato?

O próprio Senado registra que o sistema de assistência médica possui regras específicas para dependentes.

Em 2026, essa discussão chegou novamente ao plenário da Casa. O PRS 14/2026, apresentado pelo senador Eduardo Girão, propõe extinguir a assistência à saúde vitalícia de ex-senadores e de diversos familiares e dependentes, limitando a assistência ao período de exercício do mandato e estabelecendo regras de transição, transparência e auditoria. A proposta ainda está em tramitação.

Ou seja: a discussão não é imaginária. Está oficialmente colocada dentro do próprio Senado.

E o eleitor, onde entra nessa história?

Entra no lugar mais importante: na escolha.

Antes de apertar o botão da urna, o eleitor pode perguntar:

Seu senador usa o SUS?

Se não usa, tudo bem. Ninguém deve ser obrigado a abrir mão de um plano de saúde privado.

Mas outra pergunta precisa ser feita:

Ele defende uma saúde pública que considera boa o suficiente para o cidadão que paga seus impostos?

E existe uma terceira, talvez ainda mais importante:

Ele considera justo que benefícios vinculados ao mandato possam continuar depois que o mandato termina?

Não é uma pergunta de direita ou de esquerda.

Não é uma pergunta de Lula ou Bolsonaro.

Não é uma pergunta de governo ou oposição.

É uma pergunta sobre República.

Porque a República pressupõe que o Estado não seja uma máquina criada para proteger quem está dentro do poder enquanto quem está fora precisa disputar uma vaga na fila.

O problema não é o senador ter médico.

O problema seria construir um país em que o cidadão financia o sistema, mas os representantes do cidadão conseguem escapar das suas principais dificuldades.

Talvez o teste mais honesto seja outro

Não precisamos exigir que todo senador abandone seu plano de saúde.

Podemos exigir algo mais simples: transparência.

Quanto o contribuinte paga?

Quem são os beneficiários?

Quais são as regras?

Quanto custa a assistência depois do mandato?

Quais familiares podem ser atendidos?

Qual é a participação financeira do parlamentar?

E, principalmente, por que um benefício criado para o exercício de uma função pública deveria necessariamente acompanhar alguém pelo resto da vida?

São perguntas legítimas.

E devem ser feitas sem ódio, sem torcida e sem transformar saúde em guerra ideológica.

Porque talvez a verdadeira mudança não comece quando o eleitor pergunta em quem deve votar.

Talvez comece quando ele pergunta:

“O candidato que quer cuidar da minha saúde conhece, de verdade, o sistema de saúde que eu enfrento?”

Essa é uma pergunta que nenhum eleitor deveria ter medo de fazer, antes de a urna comparecer.