
Há uma pergunta que o eleitor brasileiro deveria fazer a todo candidato ao Senado: quando precisa de atendimento médico, ele procura o hospital público que ajuda a administrar ou dispõe de uma estrutura de saúde própria, custeada, ao menos em parte, pelo dinheiro público?
Não se trata de demonizar o parlamentar por ter assistência médica. Saúde é um direito — inclusive para quem ocupa um mandato eletivo. A questão é outra, muito mais profunda: que distância existe entre quem decide as regras da saúde pública e quem pode se proteger delas?
O Senado Federal mantém um sistema de assistência à saúde para seus parlamentares e dependentes. A própria Casa informa que o atendimento pode envolver serviços médico-hospitalares, ambulatoriais, odontológicos, psicoterápicos, fisioterápicos, obstétricos, de enfermagem e exames, entre outros. Há ainda previsão de assistência para ex-senadores e seus cônjuges.
É justamente aí que começa a reflexão.

O cidadão comum enfrenta fila. O senador deveria conhecer essa fila.
O cidadão espera meses por uma consulta especializada. O senador que vota o orçamento da saúde deveria saber o que significa esperar.
O cidadão entra em uma emergência do SUS e muitas vezes precisa lidar com superlotação, falta de profissionais, demora para exames e dificuldades para conseguir um leito. O parlamentar que fiscaliza o Executivo deveria experimentar, ao menos como cidadão, a realidade sobre a qual vota.
Não porque político deva ser privado de assistência médica.
Mas porque o poder público precisa ser compreendido por quem exerce o poder.
Existe uma diferença gigantesca entre defender o SUS em discurso e depender dele quando a saúde aperta.
E essa diferença merece ser discutida sem paixão partidária.
Quanto custa a distância entre o político e o cidadão?
O debate não deveria se resumir a saber se o senador tem plano de saúde.
A pergunta mais incômoda é: por que determinadas categorias do poder público podem ter mecanismos de proteção que o trabalhador brasileiro jamais teria condições de pagar?
E mais: até onde deve ir um benefício criado para proteger o exercício de um mandato?
O mandato termina. A vida parlamentar acaba. O eleitor escolhe outro representante.
Mas quando determinados benefícios podem permanecer depois do fim da atividade política, inclusive alcançando familiares em determinadas condições, surge uma questão republicana incontornável:
um mandato eletivo deve gerar proteção permanente ou deveria terminar junto com o mandato?
O próprio Senado registra que o sistema de assistência médica possui regras específicas para dependentes.
Em 2026, essa discussão chegou novamente ao plenário da Casa. O PRS 14/2026, apresentado pelo senador Eduardo Girão, propõe extinguir a assistência à saúde vitalícia de ex-senadores e de diversos familiares e dependentes, limitando a assistência ao período de exercício do mandato e estabelecendo regras de transição, transparência e auditoria. A proposta ainda está em tramitação.
Ou seja: a discussão não é imaginária. Está oficialmente colocada dentro do próprio Senado.
E o eleitor, onde entra nessa história?
Entra no lugar mais importante: na escolha.
Antes de apertar o botão da urna, o eleitor pode perguntar:
Seu senador usa o SUS?
Se não usa, tudo bem. Ninguém deve ser obrigado a abrir mão de um plano de saúde privado.
Mas outra pergunta precisa ser feita:
Ele defende uma saúde pública que considera boa o suficiente para o cidadão que paga seus impostos?
E existe uma terceira, talvez ainda mais importante:
Ele considera justo que benefícios vinculados ao mandato possam continuar depois que o mandato termina?
Não é uma pergunta de direita ou de esquerda.
Não é uma pergunta de Lula ou Bolsonaro.
Não é uma pergunta de governo ou oposição.
É uma pergunta sobre República.
Porque a República pressupõe que o Estado não seja uma máquina criada para proteger quem está dentro do poder enquanto quem está fora precisa disputar uma vaga na fila.
O problema não é o senador ter médico.
O problema seria construir um país em que o cidadão financia o sistema, mas os representantes do cidadão conseguem escapar das suas principais dificuldades.
Talvez o teste mais honesto seja outro
Não precisamos exigir que todo senador abandone seu plano de saúde.
Podemos exigir algo mais simples: transparência.
Quanto o contribuinte paga?
Quem são os beneficiários?
Quais são as regras?
Quanto custa a assistência depois do mandato?
Quais familiares podem ser atendidos?
Qual é a participação financeira do parlamentar?
E, principalmente, por que um benefício criado para o exercício de uma função pública deveria necessariamente acompanhar alguém pelo resto da vida?
São perguntas legítimas.
E devem ser feitas sem ódio, sem torcida e sem transformar saúde em guerra ideológica.
Porque talvez a verdadeira mudança não comece quando o eleitor pergunta em quem deve votar.
Talvez comece quando ele pergunta:
“O candidato que quer cuidar da minha saúde conhece, de verdade, o sistema de saúde que eu enfrento?”
Essa é uma pergunta que nenhum eleitor deveria ter medo de fazer, antes de a urna comparecer.




