24.5 C
Brasília
quarta-feira, setembro 23, 2026
Início Brasil R$ 57 milhões na conta de uma igreja: o elo financeiro que...

R$ 57 milhões na conta de uma igreja: o elo financeiro que colocou a Lagoinha no radar da investigação do Banco Master

André Valadão, Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro. Foto: Reprodução.

Relatório do Coaf aponta movimentação considerada atípica em unidade da Igreja Batista da Lagoinha administrada por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro; investigação apura se a estrutura religiosa foi utilizada para movimentar recursos de terceiros

Uma conta bancária da Igreja Batista da Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte, movimentou R$ 57,1 milhões entre 24 de dezembro de 2024 e 8 de dezembro de 2025. O valor, registrado em operações consideradas atípicas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), tornou-se uma das peças que chamaram a atenção dos investigadores no caso Banco Master.

O relatório, encaminhado à Polícia Federal em fevereiro de 2026 e posteriormente tornado público após o levantamento do sigilo de documentos da investigação, registra R$ 28,49 milhões em créditos e R$ 28,61 milhões em débitos em uma conta mantida no Banco do Brasil.

A dimensão dos valores é um dos principais elementos que despertaram a atenção das autoridades.

O faturamento anual presumido da instituição era estimado em R$ 950 mil. Assim, somente os créditos registrados no período equivaleriam a aproximadamente 30 vezes essa estimativa.

O próprio Coaf apontou que as operações, consideradas em razão de sua habitualidade, valores e forma, poderiam representar um mecanismo destinado a dificultar a identificação da origem, do destino ou dos responsáveis finais pelos recursos. Isso, porém, não significa que o órgão tenha concluído pela existência de lavagem de dinheiro. A eventual caracterização de crime depende da investigação e das autoridades competentes.

O personagem que conecta a igreja ao Banco Master

No centro dessa movimentação aparece Fabiano Campos Zettel, então responsável pela unidade do Belvedere.

Zettel é cunhado de Daniel Vorcaro, fundador e ex-controlador do Banco Master, e foi apontado por investigadores como operador financeiro de uma organização criminosa investigada no caso.

Segundo o relatório divulgado pela Folha, Zettel realizou 26 lançamentos na conta da igreja, que somaram aproximadamente R$ 19,2 milhões.

O dado modifica a natureza da pergunta sobre a movimentação financeira.

Não se trata apenas de saber por que uma igreja movimentou R$ 57 milhões. A questão que passou a interessar à investigação é qual era a origem desses recursos, por que passaram pela conta da instituição religiosa e qual foi o destino final do dinheiro.

O relatório também registra quatro aportes realizados por Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, no total de R$ 120 mil. Outro personagem identificado nas movimentações foi Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado nas investigações como integrante do círculo de segurança de Vorcaro, responsável por 11 depósitos que totalizaram R$ 22 mil.

Uma igreja como possível “conta de passagem”?

É justamente nesse ponto que a investigação ganha contornos mais delicados.

A Folha informou que a equivalência entre os valores que entraram e saíram da conta, somada à discrepância entre a movimentação financeira e o faturamento presumido da instituição, está entre os elementos que fundamentam a suspeita de que a conta poderia ter funcionado como uma espécie de “conta de passagem”.

Entre os principais destinos dos recursos estavam construtoras e incorporadoras, que receberam aproximadamente R$ 4,9 milhões no período analisado.

A pergunta, portanto, deixa de ser exclusivamente religiosa ou bancária.

Quem efetivamente controlava o dinheiro?

Quem determinava os pagamentos?

Quais serviços ou obras justificavam as transferências?

E, principalmente, os recursos tinham relação com atividades legítimas da igreja ou foram utilizados para movimentar valores de terceiros?

São perguntas que somente a análise integral das quebras de sigilo bancário e fiscal poderá responder.

A explicação apresentada pela Lagoinha

A Igreja Batista da Lagoinha Global afirmou que a unidade do Belvedere possuía liderança própria e autonomia financeira.

Segundo a denominação, à época das movimentações, a direção havia sido informada de que seriam realizados investimentos em reformas e melhorias no templo. A igreja afirmou que as intervenções efetivamente ocorreram e eram visíveis no local.

A Lagoinha, entretanto, declarou que não tinha conhecimento da dimensão dos valores movimentados e que somente tomou conhecimento do montante a partir das investigações.

A instituição também afirmou que os recursos não teriam sido apresentados à direção como dízimos, ofertas ou doações, mas como valores captados por Fabiano Zettel para financiar obras e melhorias.

Depois que surgiram as primeiras informações públicas sobre o caso Banco Master, Zettel foi afastado de suas funções pastorais, segundo a denominação. A Lagoinha afirmou ainda repudiar práticas ilícitas e defender a apuração rigorosa dos fatos.

Da igreja ao império financeiro

A conexão entre Lagoinha e Vorcaro, entretanto, não começou com a descoberta dos R$ 57 milhões.

A relação entre a família do banqueiro e a igreja é antiga e foi reconstruída pelo episódio “Grandes Igrejas, Master Negócios”, da série jornalística Revelando, apresentado por Fábio Porchat.

A produção parte do casamento de Fabiano Zettel com Natália Vorcaro, irmã de Daniel Vorcaro, cerimônia celebrada pelo pastor André Valadão, e reconstrói relações mantidas durante décadas entre a família Vorcaro e a Igreja Batista da Lagoinha.

O episódio também aborda a atuação de Zettel no entorno empresarial de Vorcaro e relações do banqueiro com políticos e empresários.

É importante separar, porém, relações pessoais, doações, investimentos e movimentações financeiras comprovadamente registradas de eventuais crimes. O fato de pessoas ou instituições terem mantido relações financeiras ou pessoais com Vorcaro não constitui, por si só, prova de participação em ilícitos.

O caso Master amplia o alcance da investigação

O Banco Master tornou-se alvo de uma investigação de grandes proporções, conduzida pela Polícia Federal e submetida ao Supremo Tribunal Federal.

A própria PF informou, em julho de 2026, que uma das fases da Operação Compliance Zero investigava uma possível organização criminosa, além de suspeitas relacionadas ao sistema financeiro, intimidação de jornalistas, obtenção indevida de informações sigilosas e interferência em investigações.

Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel estão presos preventivamente no contexto das investigações. Nenhum dos dois foi condenado pelos fatos investigados, e as suspeitas ainda dependem da conclusão das apurações e da eventual responsabilização judicial.

O caso também revelou outras relações financeiras e políticas envolvendo o banqueiro.

Em maio, por exemplo, veio a público que o senador Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro recursos para a produção de um filme sobre Jair Bolsonaro. O próprio senador posteriormente afirmou que Vorcaro havia investido mais de US$ 12 milhões no projeto, embora o orçamento inicialmente previsto fosse de US$ 24 milhões.

Essas relações fazem parte de diferentes frentes da investigação e não estabelecem, isoladamente, conexão criminosa com a movimentação da igreja.

O que falta descobrir

O relatório do Coaf é um alerta financeiro, não uma sentença.

A investigação ainda precisa esclarecer se os R$ 57,1 milhões correspondem integralmente a operações relacionadas às obras alegadas pela igreja, se havia contratos e notas fiscais compatíveis com os pagamentos, quem eram os efetivos beneficiários das transferências e qual era a origem dos recursos depositados.

Também será necessário estabelecer se os R$ 19,2 milhões transferidos por Zettel tinham relação legítima com as atividades da unidade religiosa ou se a conta foi utilizada para uma finalidade diferente daquela apresentada à instituição.

Essa distinção é fundamental.

Uma movimentação financeira atípica pode justificar uma investigação sem significar, por si só, a ocorrência de lavagem de dinheiro.

Mas o tamanho da movimentação, sua incompatibilidade com o faturamento presumido da unidade e a presença de valores transferidos pelo cunhado de Daniel Vorcaro colocaram a Igreja Batista da Lagoinha Belvedere dentro de uma das perguntas mais sensíveis do caso Master:

a estrutura de uma instituição religiosa foi utilizada apenas para financiar obras ou também para movimentar dinheiro cuja origem e destino ainda precisam ser esclarecidos?

A resposta está nos documentos que permanecem sob análise da Polícia Federal, nas quebras de sigilo e na reconstrução do caminho percorrido por cada transferência.

Enquanto a investigação não terminar, qualquer conclusão definitiva sobre lavagem de dinheiro seria prematura.

O que já está documentado, entretanto, é suficiente para explicar por que a conta da Lagoinha Belvedere entrou no radar das autoridades: R$ 57,1 milhões passaram por ela em menos de um ano, enquanto o faturamento anual presumido da instituição era de R$ 950 mil.