Editorial | Corrupção não é episódio, é sistema
Do Mensalão ao Banco Master: por que o Brasil precisa medir a corrupção
O Brasil insiste em tratar a corrupção como uma sucessão de escândalos isolados, quando, na verdade, ela se revela como um fenômeno estrutural, recorrente e previsível. Do Mensalão, no início dos anos 2000, à atual crise envolvendo o Banco Master, o país assiste à repetição de um mesmo roteiro: esquemas sofisticados, uso de instituições formais para fins ilícitos, demora na resposta do Estado e ausência de mecanismos preventivos baseados em dados.
O Mensalão não foi apenas um caso de compra de apoio político. Foi a exposição de um modelo de financiamento informal do poder, sustentado por contratos públicos, bancos, operadores financeiros e partidos. Só veio à tona após anos de funcionamento silencioso, sem que qualquer órgão do Estado tivesse instrumentos estatísticos ou indicadores capazes de apontar, previamente, anomalias sistêmicas no fluxo de recursos e na relação entre política e instituições financeiras.
Décadas depois, o país se vê diante da situação do Banco Master, que acende alertas sobre governança, fiscalização, relações político-financeiras e fragilidades regulatórias. Ainda que os desdobramentos estejam em curso e devam respeitar o devido processo legal, o caso expõe, mais uma vez, um problema recorrente: os alertas surgem tardiamente, quando os riscos já estão postos e o dano institucional está em andamento.
Em ambos os episódios, a pergunta que permanece é a mesma: onde estavam os mecanismos de prevenção baseados em dados?
O Brasil dispõe de órgãos de controle, tribunais, agências reguladoras e forças de investigação. O que não possui é um sistema nacional capaz de integrar informações, identificar padrões, mapear reincidências e transformar dados dispersos em inteligência pública. Falta ao país um instituto dedicado exclusivamente a medir a corrupção — não como retórica moral, mas como fenômeno estatístico e territorial.
É nesse ponto que se impõe a criação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística da Corrupção (IBGEC).
Um IBGEC não substituiria investigações, nem anteciparia julgamentos. Sua função seria estrutural e preventiva: consolidar dados públicos oriundos de decisões judiciais, operações policiais, relatórios de tribunais de contas, fiscalizações do Banco Central, controladorias e ministérios públicos, produzindo indicadores nacionais e municipais de risco, vulnerabilidade e reincidência.
Se existisse um IBGEC à época do Mensalão, fluxos financeiros atípicos, relações reiteradas entre agentes públicos e operadores privados, concentração de contratos e padrões de comportamento institucional poderiam ter sido identificados antes da eclosão do escândalo. Da mesma forma, no caso do Banco Master, indicadores de alerta precoce poderiam ter contribuído para respostas regulatórias mais tempestivas, reduzindo riscos sistêmicos.
O argumento de que “a corrupção é difícil de medir” não se sustenta. O que falta não é possibilidade técnica, mas vontade institucional. O Estado brasileiro mede inflação, desemprego, mortalidade, produção agrícola e até hábitos alimentares. Mas segue incapaz — ou relutante — em medir aquilo que corrói todos esses indicadores simultaneamente.
Sem dados consolidados, o país continua refém da lógica do escândalo: reage quando a crise explode, pune quando o estrago já está feito e esquece quando o noticiário muda. A corrupção, assim, deixa de ser combatida como problema estrutural e passa a ser tratada como narrativa episódica.
Criar o IBGEC não significa criminalizar instituições ou antecipar culpas. Significa reconhecer que transparência é política de Estado, não discurso de ocasião. Significa aceitar que medir é condição básica para prevenir, corrigir e proteger o interesse público.
Do Mensalão ao Banco Master, a lição é clara: enquanto a corrupção não for tratada como objeto de estatística, continuará sendo tratada como surpresa. E nenhuma democracia madura pode se dar ao luxo de continuar surpresa diante de um problema que se repete há décadas.
O Brasil não precisa de mais escândalos. Precisa de método, dados e coragem institucional para olhar a corrupção de frente — antes que ela volte a explodir.





