Unidade de semiliberdade no Núcleo Bandeirante causa revolta nos moradores e depreciação de imóveis

Por: Ivan Rodrigues

Por Ivan Rodrigues – S&DS

Brasília – 27 de Outubro de 2020

Grupo de adolescentes que cumpriam medida de internação no antigo Caje, são levados para as novas unidades de internação (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Os pioneiros de Brasília e seu filhos são só revolta com a possível instalação de uma unidade de semiliberdade na cidade mãe do Núcleo Bandeirante.

A princípio, a unidade seria instalada na Metropolitana, região mais afastada do centro da cidade. Em razão dos revoltosos com essa ideia; que, começaram a espalharem faixas, chamar a imprensa e, por fim, acionaram o proprietário da casa a ser locada para que não o fizesse, a unidade pode mudar de localidade.

Especula-se, que a semiliberdade será instalada no coração do Núcleo Bandeirante – na antiga Casa da Cultura -, entre duas escolas: o Centro de Ensino Médio 01 do Núcleo Bandeirante (antigo CENB) e o Salesiana S. Domingos Sávio.

O administrador regional, Adalberto Carvalho, falou com nossa equipe.

“Não tem nada oficial ainda. Depende de decisão judicial”.

Relatos de um ex-Agente de Reintegração Social que atuou em uma unidade de semiliberdade

No ano de 1996, eu, Ivan Rodrigues, comecei a trabalhar como Agente de Reintegração Social pela Secretaria de Desenvolvimento Social em uma casa localizada na Quadra 13 de Sobradinho.

A casa abrigava vários adolescentes de até 20 anos, em cumprimento de Medidas Socioeducativas, os quais haviam praticado – roubos, latrocínios, assaltos, estupros, tentativas e homicídios.

A vizinhança, assim como a do Núcleo Bandeirante, lutaram para a não instalação e posterior a instalação, a retirada da unidade da Quadra 13.

Ocorrências

Ainda lembro-me daquele dia em que o adolescente conhecido por Dmenor, no retorno da escola, avistou uma moça que passava pela rua, e, sem nenhuma cerimônia, pegou nas partes íntimas daquela mulher.

Resultado: A população e familiares da vítima tentaram invadir a casa para linchar o adolescente.

Quando abri o portão da casa para vê o que se tratava, um homem com roupas do exército (namorado da vítima) e mais duas dúzia de pessoas queriam invadir a unidade para pegar o adolescente na porrada.

Deixei claro aos presentes, naquela momento, que o adolescente estava sobre nossa proteção na representação maior do estado. Orientei-os que procurassem a Delegacia de Sobradinho para registro de ocorrência. Assim o fizeram, e em uma hora, os agentes adentraram a unidade com mandado e aprenderam Dmenor.

Outro fato de importância a ser dito, foi quando em outro plantão, às 03h da madrugada, desafetos do adolescente Fábio (07 homicídios) da cidade de São Sebastião, tentaram invadir a casa para executá-lo.

Quando dei por mim, a casa estava cercada, com os telefones cortados e um grupo armado querendo que o adolescente fosse colocado à sua vista para acertos de conta.

Como intermediador dessa situação, procurei tentar convencê-los que teriam que nos matarem primeiro. O grupo afirmava que queria apenas Fábio. Minhas últimas palavras ao grupo: “Vejam, vocês estão sendo filmados e que tudo seria rapidamente solucionado. Façamos o seguinte acordo, de irmãos para irmãos. Eu, me comprometo a apagar todos os registros das filmagens e eles acertariam em outro lugar com o adolescente”. Assim, aceitaram minha negociação, e, no meu descumprimento, acertariam comigo também.

*Observação, a unidade nunca teve sistema de câmera, e, eu, cumpria plantão sozinho pois o outro agente, embora confirmasse que chegaria atrasado, não compareceu ao plantão.

Incendiários

Geralmente, os adolescentes que apresentam bons comportamentos, são liberados às sextas-feiras, para passarem o final de semana com seus familiares. Os que apresentam comportamentos indisciplinados, ficam o final de semana na unidade.

Acontece que três adolescentes que ficaram na casa em um final de semana, em meu plantão, resolveram atear fogo na mesma. Não sei como, conseguiram colocar fogo no botijão de gás, que em razão de nossa intervenção não veio a causar um incidente maior, apenas inviabilizaram o uso da cozinha por uma semana. Mas, neste mesmo dia, quando estávamos concentrados no fogo da cozinha, atearam fogo nos colchões dos quartos. Vivíamos sobre altíssimos stress em quaisquer plantões.

Assalto a Padaria

Na liberação dos adolescentes para passarem o final de semana com seus familiares, resolveram assaltar a padaria da outra quadra. Nunca foram presos por isso, mas, quando de suas liberações para Liberdade Assistida confessaram que faziam assaltos a estabelecimentos da localidade.

Drogas

Lógico que a droga rola dentro da casa (unidade) entre os internos. Se nos presídios de segurança máxima a droga entra com facilidade, imaginem em uma Semiliberdade. Em nossa Semiliberdade, jogavam a droga no telhado ou traziam das mais mirabolantes formas, as quais não darei como exemplo, né, senhores Willian e Agostinho; hoje, se vivos, devem estar com uns 39 e 37 anos.

Imóveis

Certamente que os moradores do Plano Piloto – Asa Sul, Lago Sul, Asa Norte, Lago Norte e Sudoeste não vão querer uma casa de Semiliberdade perto de suas residências. Não é Wallace? Foi muito bom encontrar com você e saber que está ressocializado e com uma família. Fique firme!

Retomando minhas memórias, lembro-me, que, as casas próximas a Semiliberdade estavam à venda a preço abaixo do mercado em razão da presença do menores infratores.

Por fim, os adolescentes que cometem ato infracional, são responsabilidade do Estado, que deve garantir seus direitos. Se você é contrário, não aceita tais garantias no (ECA), procure mudar sua forma de votar, pois são os nobres deputados que fazem as leis.

A unidade de semiliberdade do Núcleo Bandeirante terá a finalidade de acolher 20 jovens que foram sentenciados à medida socioeducativa de semiliberdade que estavam alojados, na unidade de internação do Recanto das Emas.

“O Distrito Federal possui atualmente cinco unidades de semiliberdade localizadas em áreas residenciais, a exemplo do Guará, Taguatinga e Gama, e não há evidências de que, após o regular funcionamento dessas unidades, tenha havido o incremento da criminalidade em suas imediações, promotor de Justiça Márcio Almeida”.

Comentários

  • Jessika Goiania disse:

    Tem que privatizar este péssimo sistema de menores infratores.
    Não queremos isso! Fica uns funcionários desse sistema defendendo apenas para manterem seu concurso. Coloquem perto de suas residências? Os menores ou como dito: Dmenor, estão bem piores do que 1996.

  • Maria Ivonete de Abreu Barbosa disse:

    Me admiro tanto o governo com uma área enorme do lado da papuda , que poderia ser construido um centro de internação bem grande que pudesse abrigar todos em uma casa só , querem colocá-los perto de nossos filhos , tirando a segurança da vizinhança.