Em uma eleição dominada por redes sociais, personalidades e disputas de identidade, os maiores fenômenos individuais da Câmara revelam um contraste que ultrapassa partidos: de um lado, dois homens brancos da direita; de outro, duas mulheres negras da esquerda. Mais do que uma coincidência estatística, o fenômeno abre uma janela para entender como raça, ideologia, gênero, juventude e comunicação passaram a disputar o mesmo território: a atenção do eleitor
Há eleições que mudam governos. Há eleições que mudam bancadas. E há eleições que produzem imagens capazes de condensar um país inteiro.
A eleição de 2026 produziu uma dessas imagens.
De um lado, Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, e Lucas Pavanato, do PL de São Paulo. Dois homens brancos, jovens, identificados com a direita e com uma trajetória construída em grande medida na política digital. Do outro, Erika Hilton, do PSOL paulista, e Ana Elisa, do PT mineiro. Duas mulheres negras, ligadas à esquerda, também com forte presença nas redes e com trajetórias políticas atravessadas por pautas de representação e direitos sociais.
O contraste é poderoso porque não está apenas na cor da pele.
Está no gênero.
Está na idade.
Está na linguagem.
Está na maneira como cada um desses políticos construiu sua comunidade de seguidores.
E, sobretudo, está na forma como a política brasileira passou a transformar identidade em capital eleitoral.
Os números ajudam a dimensionar o fenômeno.
Nikolas Ferreira terminou a eleição com 3.119.318 votos, tornando-se o deputado federal mais votado da história do país. Lucas Pavanato chegou a 3.038.438 votos, ocupando a segunda posição nacional. Erika Hilton alcançou 1.596.472 votos, tornando-se a mulher mais votada da história da Câmara. Ana Elisa recebeu 524.219 votos e terminou como a segunda candidata mais votada para deputado federal em Minas Gerais.
Não são apenas números grandes.
São números que mudam a escala da política.
O eleitor passou a votar também em pessoas
Durante décadas, a política brasileira foi explicada principalmente por partidos, máquinas eleitorais, sindicatos, lideranças regionais, famílias tradicionais e estruturas de campanha.
As redes sociais alteraram esse mecanismo.
O político passou a poder construir uma audiência antes de construir uma estrutura partidária.
E, em alguns casos, a audiência tornou-se a própria estrutura.
Nikolas Ferreira já havia sido o deputado federal mais votado do país em 2022, quando recebeu cerca de 1,49 milhão de votos. Em 2026, mais do que dobrou esse resultado e ultrapassou a marca de três milhões.
Pavanato percorreu caminho semelhante em velocidade ainda maior. Depois de conquistar 161 mil votos para vereador em São Paulo em 2024, saltou para mais de três milhões na eleição federal de 2026.
O fenômeno não pode ser compreendido apenas como crescimento de candidatos.
É crescimento de comunidades.
Cada voto parece carregar consigo uma relação construída anteriormente: um vídeo assistido, uma opinião compartilhada, uma provocação, uma transmissão ao vivo, um discurso reproduzido, uma disputa travada nas redes.
O eleitor não encontra necessariamente o candidato pela primeira vez na campanha.
Muitas vezes, já o conhece.
E essa mudança é fundamental.
A direita que aprendeu a transformar personalidade em movimento
A ascensão de Nikolas e Pavanato mostra uma característica particular da direita contemporânea brasileira: a capacidade de concentrar grandes contingentes eleitorais em torno de personalidades individuais.
Não significa que os partidos tenham perdido importância.
O PL, ao contrário, terminou 2026 com 121 deputados federais eleitos, formando a maior bancada partidária da Câmara desde a redemocratização.
Mas a relação entre partido e candidato mudou.
Em determinados casos, o partido fornece a legenda, a estrutura e o espaço institucional.
A personalidade fornece a audiência.
Nikolas, por exemplo, não foi apenas um candidato. Sua atuação eleitoral também ajudou a impulsionar outros nomes conservadores. Reportagens após a eleição registraram sua participação na promoção de candidatos em diferentes estados.
É uma espécie de efeito-rede.
Um político deixa de ser apenas destinatário de votos.
Passa a ser distribuidor de votos.
E então aparece Erika Hilton
É nesse ponto que o contraste se torna mais interessante.
Porque Erika Hilton também provou que a lógica da política digital não pertence exclusivamente à direita.
Em São Paulo, ela obteve 1.596.472 votos — mais de seis vezes a votação que havia recebido quando chegou à Câmara, em 2022. O resultado ultrapassou o recorde feminino anterior, de Joice Hasselmann, que havia recebido 1.078.666 votos em 2018.
Erika não é apenas uma personagem da esquerda.
Ela representa uma combinação política particularmente potente: mulher, negra, travesti e liderança associada a pautas de direitos humanos, igualdade racial e direitos LGBTQIA+.
Sua trajetória política também é marcada por uma ascensão que passou pela mobilização social e pela construção de reconhecimento público antes da chegada ao Congresso.
O que 2026 demonstrou é que a política de identidade pode produzir fenômenos eleitorais em campos ideológicos opostos.
A diferença está no modo como cada campo organiza essa identidade.
Ana Elisa e a política que chega aos 21 anos
Se Erika Hilton simboliza uma geração que abriu caminhos, Ana Elisa representa uma geração que já chega à política nascida dentro da lógica das plataformas digitais.
Aos 21 anos, ela foi eleita deputada federal por Minas Gerais com 524.219 votos. O registro eleitoral informa que ela se declarou preta.
Seu caso talvez seja ainda mais revelador porque sua trajetória eleitoral não nasceu de décadas de vida partidária.
Nasceu em uma época em que um jovem pode construir uma audiência política sem necessariamente passar primeiro por sindicatos, diretórios, gabinetes ou organizações tradicionais.
É a política da tela.
O celular substitui, em parte, o palanque.
O vídeo curto substitui o comício.
A comunidade virtual começa a cumprir funções que antes dependiam de uma organização física.
E a eleição transforma seguidores em eleitores.
A cor não explica o voto. Mas explica parte da imagem
Há uma armadilha em qualquer análise que tente reduzir esse fenômeno à raça.
Não há evidência, a partir desses quatro casos, de que pessoas brancas votem necessariamente na direita ou pessoas negras votem necessariamente na esquerda.
A realidade brasileira é muito mais complexa.
O que os dados permitem observar é outra coisa: os maiores fenômenos individuais de 2026 produziram uma imagem racialmente contrastante entre os dois campos políticos.
Nikolas e Pavanato aparecem, nos registros eleitorais consultados, como candidatos que declararam cor/raça branca. Ana Elisa declarou-se preta, enquanto Erika Hilton é publicamente identificada como mulher negra.
Essa coincidência não determina o resultado.
Mas merece ser observada.
Porque a política brasileira sempre foi profundamente atravessada por raça, mesmo quando preferiu fingir que não era.
Durante muito tempo, a população negra esteve sub-representada nos espaços de poder.
Agora, uma mulher negra e travesti chega ao topo histórico da votação feminina da Câmara.
Uma mulher negra de 21 anos chega ao grupo dos candidatos mais votados do país.
Ao mesmo tempo, dois homens brancos associados à direita ultrapassam, individualmente, a marca de três milhões de votos.
A pergunta jornalisticamente interessante não é simplesmente “quem votou em quem?”
É: que tipo de Brasil está se reconhecendo nesses rostos?
Quatro candidatos, quatro símbolos
Nikolas representa a consolidação de uma direita jovem, digital e fortemente personalizada.
Pavanato representa a velocidade com que uma carreira política pode ser convertida em fenômeno nacional quando encontra uma audiência digital suficientemente grande.
Erika representa a transformação da identidade negra, feminina e trans em uma linguagem política capaz de alcançar uma votação sem precedentes entre mulheres na Câmara.
Ana Elisa representa a chegada de uma geração que praticamente não conhece a política sem internet.
São histórias diferentes.
Mas há algo que as aproxima:
nenhum desses fenômenos depende exclusivamente do velho modelo de campanha.
Todos precisam ser compreendidos pela lógica da atenção.
A guerra política mudou de lugar
Durante muito tempo, a política brasileira aconteceu principalmente na televisão.
Depois, migrou para o rádio, para os jornais, para os grandes eventos e para os comícios.
Agora, acontece no feed.
A disputa já não é somente por espaço publicitário.
É por tempo de tela.
O candidato precisa fazer com que alguém pare o dedo por alguns segundos.
Precisa produzir identificação.
Precisa provocar reação.
Precisa ser lembrado.
Precisa fazer parte da conversa.
Essa lógica favorece personalidades fortes — e pode favorecer discursos polarizadores, independentemente do campo ideológico.
O conteúdo que provoca indignação pode circular tanto quanto o conteúdo que produz admiração.
A controvérsia pode ser combustível eleitoral.
A oposição pode virar audiência.
E a audiência pode virar voto.
Análises sobre a eleição de 2026 já identificam o papel do chamado ragebait — conteúdos desenhados para provocar indignação e engajamento — na expansão de figuras políticas digitais, especialmente no campo conservador.
A identidade virou linguagem eleitoral
É aqui que raça, gênero e ideologia se encontram.
Nikolas não é apenas um homem branco de direita.
Pavanato não é apenas um candidato do PL.
Erika não é apenas uma deputada do PSOL.
Ana Elisa não é apenas uma candidata do PT.
Cada um carrega consigo uma narrativa.
E narrativas são poderosas porque permitem ao eleitor votar não apenas em uma proposta, mas em uma representação.
O eleitor pode olhar para um candidato e pensar:
“Ele fala como eu.”
Ou:
“Ela vive o que eu vivo.”
Ou:
“Ele representa aquilo que eu defendo.”
Ou simplesmente:
“Ela é uma pessoa que eu conheço da internet.”
Essa última frase, aparentemente banal, talvez seja uma das mais importantes para compreender a política contemporânea.
Conhecer alguém pela internet produz uma sensação de proximidade que a política tradicional demorava anos para construir.
O paradoxo brasileiro
Há um paradoxo fascinante em 2026.
A política brasileira nunca esteve tão polarizada ideologicamente.
Mas, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão dependente de mecanismos semelhantes de comunicação.
Direita e esquerda disputam pautas diferentes.
Defendem projetos diferentes.
Fazem leituras diferentes do país.
Mas ambas aprenderam que não basta apresentar um programa.
É preciso construir uma comunidade.
É preciso ter rosto.
É preciso ter voz.
É preciso dominar a narrativa.
E, sobretudo, é preciso permanecer presente quando a eleição termina.
O Congresso que chega em 2027
O próximo Congresso será formado por parlamentares que já chegam a Brasília com audiências próprias.
Isso muda a relação entre deputado, partido e eleitor.
Um parlamentar com três milhões de votos e milhões de pessoas acompanhando seu conteúdo não entra na Câmara como um político desconhecido.
Ele chega acompanhado.
Chega com uma comunidade digital.
Chega com capacidade de mobilização.
Chega com capacidade de pautar debates.
E isso vale também, em escalas diferentes, para nomes como Erika Hilton e Ana Elisa.
A própria campanha presidencial já começou a incorporar essa realidade. Após o primeiro turno, a campanha de Lula convocou Erika Hilton e Ana Elisa para atuar na comunicação voltada às redes no segundo turno, reconhecendo o peso eleitoral e digital das duas parlamentares.
É uma demonstração concreta de que os partidos tradicionais estão sendo obrigados a aprender uma nova gramática.
A cor dos milhões
No fundo, a fotografia de 2026 não é simplesmente uma fotografia da direita branca contra a esquerda negra.
É mais complexa.
É a fotografia de um país em que raça e ideologia continuam profundamente entrelaçadas, mas já não funcionam como explicações isoladas.
É a fotografia de uma juventude que transformou as redes em espaço político.
É a fotografia de partidos tentando acompanhar candidatos que, em alguns casos, tornaram-se maiores que suas próprias estruturas.
É a fotografia de uma sociedade em que identidade, pertencimento, indignação, representação e entretenimento passaram a ocupar o mesmo espaço.
E talvez seja exatamente por isso que esses números sejam tão importantes.
Mais do que dizer quem venceu ou quem perdeu uma disputa interna entre esquerda e direita, eles mostram como o eleitor brasileiro está escolhendo os novos intermediários entre ele e o poder.
Antes, esses intermediários eram quase sempre partidos, líderes tradicionais e meios de comunicação.
Agora, podem ser pessoas que aparecem diariamente na tela de um celular.
A pergunta que fica
A grande questão para os próximos anos não será apenas quantos votos esses políticos receberam.
Será o que acontecerá quando milhões de eleitores passarem a acompanhar seus representantes diariamente, fora dos filtros tradicionais do jornalismo, dos partidos e das instituições.
O fenômeno de 2026 pode ser apenas o começo de uma transformação muito maior.
A política está ficando mais pessoal.
Mais visual.
Mais identitária.
Mais imediata.
E, ao mesmo tempo, mais dependente da economia da atenção.
Os números estão registrados.
Nikolas Ferreira: 3.119.318.
Lucas Pavanato: 3.038.438.
Erika Hilton: 1.596.472.
Ana Elisa: 524.219.
Quatro números.
Quatro trajetórias.
Quatro símbolos.
E uma pergunta que o Brasil ainda terá de responder:
quando milhões de pessoas deixam de votar apenas em partidos e passam a votar em rostos, identidades e comunidades, estamos diante de uma nova representação política — ou do nascimento de uma política em que a própria identidade se transforma no principal instrumento de poder?
A eleição de 2026 não encerrou essa discussão.
Talvez tenha apenas inaugurado o seu capítulo mais importante





