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quinta-feira, janeiro 22, 2026
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Hospital Anchieta não é vítima, como afirma: precarização da enfermagem, piso ignorado e jornadas exaustivas expõem falha estrutural

As vítimas são: professora aposentada Miranilde Pereira da Silva, 75 anos, de Taguatinga; o servidor público João Clemente Pereira, 63 anos, do Riacho Fundo I; o servidor público Marcos Raymundo Fernandes Moreira, 33 anos, de Brazlândia.

OPINIÃO

Ao final da nota oficial divulgada após a prisão de ex-técnicos de enfermagem suspeitos de homicídios na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), o Hospital Anchieta afirma que, “enquanto também vítima da ação destes ex-funcionários, solidariza-se com os familiares das vítimas”. A declaração, embora carregada de apelo institucional, desloca o eixo central do debate e exige uma análise mais profunda sobre o papel estrutural do próprio hospital no contexto em que os crimes ocorreram.

Não se trata, em nenhuma hipótese, de relativizar a gravidade extrema dos fatos investigados, tampouco de justificar condutas criminosas que resultaram em mortes. Trata-se de compreender que episódios dessa magnitude não surgem de forma isolada, dissociados do modelo de gestão, das relações de trabalho e das condições impostas à força de trabalho da enfermagem.

Ao se colocar como vítima, o Hospital Anchieta omite um elemento essencial: a forma como organiza, contrata, remunera e supervisiona seus profissionais de enfermagem. A adoção de cooperativas, frequentemente marcadas por vínculos frágeis, profissionais com formação desigual, ausência de plano de carreira e remuneração inferior à de contratos diretos, compõe um cenário conhecido de precarização do trabalho na saúde privada. Soma-se a isso escalas extensas, jornadas exaustivas e alta rotatividade, especialmente em setores críticos como UTIs.

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Esse modelo não cria criminosos — e isso precisa ser afirmado com clareza —, mas fragiliza barreiras de segurança, reduz a capacidade de supervisão efetiva e compromete a qualidade da assistência. Protocolos institucionais, por mais bem desenhados que sejam, não operam sozinhos. Eles dependem de profissionais qualificados, descansados, bem remunerados e inseridos em vínculos que favoreçam responsabilidade, pertencimento e vigilância contínua.

A nota do hospital também silencia sobre a realidade concreta do Piso Salarial da Enfermagem. Embora previsto em lei, o piso ainda não se materializou plenamente na prática cotidiana, sobretudo em contratos terceirizados e cooperativados. Na outra ponta, a jornada de 30 horas semanais — amplamente reconhecida como parâmetro de segurança assistencial e de proteção à saúde do trabalhador — permanece distante da realidade da maioria dos enfermeiros e técnicos de enfermagem. O resultado é previsível: múltiplos vínculos, plantões consecutivos, fadiga crônica e desgaste físico e mental em ambientes onde qualquer erro pode ser fatal.

Quando o hospital afirma confiar “nos protocolos internos que norteiam sua atuação”, mas não enfrenta publicamente o debate sobre quem executa esses protocolos e sob quais condições, constrói uma narrativa incompleta. A excelência assistencial não se sustenta apenas com comitês instaurados após tragédias, nem com investigações internas céleres — ainda que necessárias. Ela se constrói, sobretudo, com investimento estrutural permanente na valorização da enfermagem.

Ao reivindicar para si o papel de vítima, a instituição acaba por desviar o foco de uma discussão inevitável: a responsabilidade institucional sobre o modelo de gestão da força de trabalho. Hospitais não são meros cenários neutros onde fatos acontecem; são organizações que tomam decisões diárias sobre contratação, dimensionamento de pessoal, remuneração e carga horária — decisões que impactam diretamente a segurança do paciente.

Assim, embora os crimes devam ser rigorosamente apurados e punidos na esfera penal, é tecnicamente impreciso e eticamente questionável que o Hospital Anchieta se coloque apenas como vítima. O caso expõe, de forma dura, uma ferida antiga do sistema de saúde brasileiro: sem piso salarial efetivamente aplicado, sem jornada digna de 30 horas e sem valorização real da enfermagem, o discurso de segurança do paciente permanece frágil — e, em certos momentos, contraditório.

Mais do que um episódio policial, o que emerge deste caso é um alerta estrutural. Onde a enfermagem é tratada como custo a ser reduzido, e não como pilar da assistência, o risco deixa de ser exceção e passa a integrar o próprio sistema.