
Um erro médico elementar — afirmar a presença de um órgão cirurgicamente retirado — foi o fio que desatou a farsa de Wellington Augusto Mazini Silva, de 28 anos, preso após se passar por médico em uma Unidade Básica de Saúde [UBS] de Cananéia, no litoral de São Paulo.
Durante a realização de um exame de ultrassonografia, procedimento de diagnóstico por imagem que utiliza ondas sonoras para visualizar órgãos internos, o falso profissional afirmou que a vesícula biliar de uma paciente estava “em boas condições”. O detalhe incontornável: a mulher havia sido submetida a uma colecistectomia, cirurgia que consiste justamente na retirada completa da vesícula, tornando impossível qualquer visualização do órgão no exame.
A incongruência grotesca levou a paciente a desconfiar imediatamente da atuação do suposto médico e a comunicar o fato à direção de Saúde do município, que acionou a Polícia Militar. Wellington foi preso na quarta-feira (7), após ser flagrado utilizando o CRM de um médico legítimo, sócio de uma clínica da capital paulista.
Erros grosseiros e laudos genéricos
De acordo com a Polícia Civil, o episódio da “vesícula fantasma” não foi um caso isolado. Diversos pacientes relataram inconsistências técnicas nas avaliações feitas por Wellington durante atendimentos na UBS do Centro.
Em outro caso, o falso médico afirmou que um paciente não apresentava esteatose hepática (gordura no fígado), apesar de o homem já estar em acompanhamento médico e tratamento específico para a condição. Também surgiram relatos de que os laudos emitidos eram meras reproduções padronizadas, descritos como “copia e cola” de outros documentos, sem individualização clínica — prática incompatível com qualquer exercício regular da medicina.
Prisão e material apreendido
Segundo o boletim de ocorrência, Wellington realizava exames de ultrassom com equipamentos próprios e utilizava indevidamente o CRM de outro profissional. Com ele, a polícia apreendeu:
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carimbo pertencente a outro médico;
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blocos de receituários de diferentes clínicas;
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cadastro do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) em nome de terceiro.
Informalmente, o suspeito afirmou que receberia R$ 2 mil pelos serviços prestados. Ele foi autuado por exercício ilegal da medicina e falsidade ideológica, já que se apresentava como outra pessoa e emitia laudos sob identidade falsa.
Após audiência de custódia, a prisão em flagrante foi convertida em prisão preventiva, e Wellington foi encaminhado ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Registro.
Ao g1, o advogado de defesa, Celino Barbosa de Souza Netto, informou que pretende recorrer da decisão judicial e afirmou que buscará provar a inocência do cliente ao longo do processo.
Prefeitura reconhece fraude e reconvoca pacientes
Em nota oficial, a Prefeitura de Cananéia informou que o falso médico atuou na UBS por apenas um dia. Segundo a administração municipal, o médico verdadeiro foi regularmente contratado pela empresa gestora do sistema de saúde, com apresentação de toda a documentação exigida, incluindo CRM válido.
“No entanto, quem compareceu à unidade para prestar o serviço foi outra pessoa, que se fez passar pelo profissional, utilizando documentos falsos apresentados a servidores municipais e à autoridade policial”, afirmou a prefeitura.
O município destacou que, embora a ultrassonografia seja um exame não invasivo e de baixo risco, sua realização por alguém sem habilitação legal configura grave violação ética, jurídica e sanitária.
Todos os pacientes atendidos na terça-feira (6) estão sendo reconvocados para repetir os exames na próxima terça-feira, dia 13 de janeiro.
“A Prefeitura de Cananéia lamenta o ocorrido, pede desculpas à população e informa que foi instaurada sindicância administrativa, em conjunto com a empresa gestora, para apurar responsabilidades, identificar falhas e fortalecer os mecanismos de controle, prevenção e governança”, conclui a nota.



