Depois de escândalos nacionais que envolveram venda de sentenças judiciais, comercialização de postos de vigilantes, brigadistas e até fraudes em documentos oficiais, uma nova denúncia de extrema gravidade chegou ao portal S&DS – Em Defesa da Saúde e colocou o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal [IGESDF] no centro de uma suspeita que atinge diretamente a área assistencial: a suposta venda de vagas para enfermeiros e médicos.
Criado durante o governo do ex-governador Rodrigo Rollemberg [PSB-DF], o IGESDF é responsável pela gestão de importantes unidades de saúde do Distrito Federal. As denúncias recebidas pela reportagem indicam que processos seletivos poderiam estar sendo utilizados como porta de entrada para esquemas ilícitos, nos quais profissionais reprovados seriam posteriormente abordados com propostas financeiras para ingressar na instituição.
O portal S&DS ouviu dois dos quatro profissionais que procuraram a redação para relatar os fatos. Ambos pediram anonimato por receio de represálias.
Um médico radiologista, identificado pelas iniciais C.B.O., relatou que participou de um processo seletivo neste ano e foi reprovado. Dias depois, recebeu uma ligação de um homem oferecendo a vaga mediante pagamento de R$ 100 mil.
“Fiquei extremamente surpreso. Meus dados estavam nas mãos de criminosos que estão dentro do IGESDF ou, no mínimo, ligados à instituição. Evidentemente, recusei. O Distrito Federal tem grande demanda por minha especialidade e atualmente trabalho em um hospital renomado em Goiânia”, afirmou.
Situação semelhante foi vivida pelo enfermeiro R.A.L., que participou de um processo seletivo no segundo semestre e também foi eliminado na fase final. Segundo ele, a ligação ocorreu por volta das 18h20, quando se deslocava para o trabalho no Hospital Santa Lúcia, em Taguatinga. Do outro lado da linha, uma mulher ofereceu a vaga mediante pagamento de R$ 50 mil.
“A proposta foi direta: R$ 50 mil pela vaga que, segundo a banca, eu não havia passado. Fica a pergunta: será que eu realmente não passei?”, questionou.
O enfermeiro tentou agendar um encontro presencial para esclarecer a situação, mas recebeu uma negativa categórica. Segundo ele, a interlocutora afirmou que aquela seria a “última ligação” e que a proposta era “pegar ou largar”.
Outros dois profissionais que inicialmente procuraram o portal desistiram de prestar depoimento ao longo da semana, apesar das tentativas reiteradas de contato por parte da reportagem. As ligações, segundo eles, teriam ocorrido por números privados, o que inviabilizou qualquer retorno.
O que diz o IGESDF
Procurado pela reportagem, o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal enviou nota oficial na qual nega qualquer irregularidade em seus processos seletivos e afirma que não há registros formais de denúncias nos canais institucionais.
Segundo o IGESDF, todos os processos seletivos são realizados exclusivamente por meio do site oficial (https://processoseletivo.igesdf.org.br), em sistema próprio, transparente e acessível a todos os candidatos. O Instituto afirma ainda que não entra em contato com candidatos por telefone, WhatsApp ou e-mail para oferta de vagas, tampouco recebe currículos por e-mail.
De acordo com a nota, todas as vagas são publicadas no site oficial, e toda a comunicação, envio de documentos e acompanhamento das etapas ocorrem unicamente pela plataforma, utilizando o e-mail informado pelo próprio candidato no ato da inscrição, sempre dentro do ambiente oficial do sistema.
O IGESDF também alertou para a possibilidade de tentativas de golpe praticadas por terceiros, orientando que qualquer pessoa que receba ligações, mensagens ou e-mails oferecendo vagas, solicitando pagamento ou dados pessoais em nome do Instituto não responda e registre boletim de ocorrência junto à Polícia Civil.
Por fim, o Instituto declarou que não compactua com qualquer prática irregular, adota mecanismos de controle e segurança da informação e reafirma o compromisso com a transparência, a ética, a legalidade e a integridade dos processos seletivos, colocando-se à disposição para colaborar com os órgãos de controle e investigação.
Apesar da manifestação oficial, os relatos recebidos pelo portal S&DS levantam questionamentos relevantes sobre a segurança dos dados dos candidatos, a eventual atuação de intermediários com acesso a informações sensíveis e a necessidade de apuração aprofundada por parte dos órgãos competentes. A depender do avanço das denúncias, o caso pode extrapolar a esfera administrativa e alcançar o campo criminal, com impactos diretos não apenas na legalidade das contratações, mas também na confiança da população e na qualidade da assistência prestada à saúde pública do Distrito Federal.




