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quinta-feira, outubro 22, 2026
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O desafio dos sigilos: nem Lula nem Flávio Bolsonaro querem abrir o jogo sozinhos

Lula e Flávio Bolsonaro representam dois dos principais polos da disputa política brasileira. Mas uma pergunta permanece no debate sobre inclusão: a diversidade defendida nos discursos também aparece na composição das chapas que disputam o poder?

O desafio dos sigilos: transparência ou estratégia eleitoral?

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Tetiana Dolganova

Se Lula e Flávio Bolsonaro realmente quisessem colocar a verdade acima da disputa eleitoral, poderiam transformar o discurso de transparência em um gesto simples: abrir individualmente seus próprios sigilos aos brasileiros, sem condicionar a iniciativa à decisão do adversário.

A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro em torno da abertura de sigilos bancários, fiscais e de outras informações pessoais ganhou espaço na reta final da campanha. De um lado, Lula afirma estar disposto a abrir seus dados e os de familiares, desde que Flávio faça o mesmo. Do outro, Flávio diz aceitar a abertura de seus sigilos por um período ainda maior, mas apresenta uma extensa lista de condições envolvendo Lula, familiares, empresas e informações relacionadas ao governo.

À primeira vista, os dois lados parecem disputar quem oferece mais transparência. Mas há uma pergunta que não pode ser ignorada:

Se o objetivo principal fosse descobrir a verdade, por que a abertura dos próprios sigilos precisaria depender da abertura dos sigilos do adversário?

Essa é a questão central.

Transparência não deveria depender de reciprocidade

Um candidato que deseja provar aos eleitores que não tem nada a esconder não precisa necessariamente esperar que seu adversário faça o mesmo.

Poderia simplesmente dizer:

“Estes são os meus dados. Podem examiná-los.”

Lula poderia autorizar a abertura de seus próprios sigilos independentemente da decisão de Flávio. Flávio, da mesma maneira, poderia fazer o mesmo independentemente de Lula.

Nesse cenário, o eleitor teria condições de analisar os fatos sem que a transparência de um fosse utilizada como moeda de troca pela transparência do outro.

Mas não é isso que está acontecendo.

A lógica apresentada pelos dois candidatos é essencialmente condicional.

Lula diz, em resumo:

“Eu abro, se Flávio abrir.”

Flávio responde:

“Eu abro, mas quero que Lula também abra uma série de informações que considero relevantes.”

Politicamente, ambos têm argumentos para justificar suas posições. Mas, quando se fala em verdade e transparência, existe uma diferença fundamental entre oferecer voluntariamente os próprios dados e usar a abertura dos dados como condição para que o adversário também se exponha.

O eleitor fica no meio da disputa

O problema é que o cidadão brasileiro não está interessado apenas em saber quem venceu a batalha de discursos.

O eleitor quer saber:

O que existe nos documentos?

É justamente aí que a discussão se torna mais relevante.

Enquanto Lula e Flávio trocam petições, condições e acusações, os dados continuam sem chegar ao conhecimento público de maneira efetiva.

O resultado é uma situação politicamente conveniente para ambos.

Cada candidato pode dizer aos seus apoiadores que aceitou o desafio.

Lula pode afirmar que se dispôs a abrir seus sigilos.

Flávio pode responder que ofereceu até 20 anos de informações.

E, simultaneamente, nenhum dos dois precisa apresentar imediatamente ao eleitorado o conteúdo de sua vida financeira e fiscal.

Essa é a contradição que merece ser exposta.

O número de anos não resolve a questão

Flávio apresentou uma oferta de abertura por 20 anos, enquanto a proposta de Lula se concentra em oito anos.

A diferença parece significativa.

Mas transparência não pode ser medida apenas pelo número de anos.

Uma autorização de 20 anos acompanhada de diversas condições continua sendo uma autorização condicionada.

Da mesma maneira, uma autorização de oito anos condicionada à reciprocidade também não representa uma abertura unilateral.

Portanto, transformar a discussão em uma competição de “20 contra 8” pode ser apenas mais uma forma de deslocar a atenção do ponto principal.

A pergunta deveria ser outra:

Os dados foram efetivamente colocados à disposição para verificação independente?

E os familiares?

Há ainda outra questão importante.

Os dois candidatos ampliaram o debate para familiares, empresas e terceiros.

Isso torna a discussão juridicamente mais complexa. Um candidato pode autorizar seus próprios dados, mas não necessariamente possui poder para autorizar, sozinho, a divulgação de informações privadas pertencentes a outras pessoas.

Por isso, também é necessário cuidado para não transformar suspeitas, investigações ou relações empresariais em provas de crimes.

Uma investigação não é uma condenação.

Uma relação comercial não é, por si só, prova de irregularidade.

E uma menção em documento bancário não demonstra automaticamente prática criminosa.

O jornalismo responsável precisa distinguir fatos comprovados de acusações políticas.

A pergunta que os dois deveriam responder

Existe, entretanto, uma pergunta que independe de preferência partidária:

Se Lula acredita que seus sigilos demonstrarão que não há nada a esconder, por que precisa esperar Flávio?

E a mesma pergunta deve ser feita a Flávio:

Se Flávio acredita que seus sigilos comprovarão sua transparência, por que precisa condicionar a abertura à divulgação de informações de Lula e de terceiros?

Não há razão para aplicar um critério a um candidato e outro critério ao adversário.

Se a verdade é realmente o objetivo, a lógica deveria ser simples:

cada candidato abre os próprios dados, individualmente, dentro dos limites legais, e permite que os brasileiros conheçam os fatos.

Depois, o eleitor compara.

O verdadeiro teste de transparência

A disputa poderia terminar rapidamente se os dois candidatos adotassem o mesmo princípio:

“Não vou esperar meu adversário. Vou abrir voluntariamente os meus próprios sigilos, porque quero que o eleitor conheça a verdade sobre mim.”

Isso seria transparência.

Condicionar a própria abertura à abertura do adversário é outra coisa: é uma negociação política.

Pode ser legítima como estratégia eleitoral. Pode até ser juridicamente necessária em determinados aspectos.

Mas não deveria ser apresentada ao eleitor como se fosse exatamente a mesma coisa que uma exposição voluntária e individual dos próprios dados.

No fim, a questão não deveria ser quem fez a proposta mais inteligente, quem impôs mais condições ou quem conseguiu produzir a melhor manchete.

A questão deveria ser muito mais simples:

Onde estão os dados?

Porque, se Lula e Flávio realmente querem colocar a verdade acima da estratégia eleitoral, ambos têm uma oportunidade extraordinariamente simples de demonstrá-lo:

abrir individualmente os próprios sigilos, independentemente do outro, dentro do que a legislação permitir, e deixar que os brasileiros — e não as campanhas — examinem os fatos.

Até que isso aconteça, o chamado “desafio dos sigilos” continuará sendo, sobretudo, uma disputa de narrativas.

E o eleitor continuará recebendo promessas de transparência, mas sem necessariamente receber a transparência em si.