O Hospital da Criança de Brasília José Alencar encerrou o terceiro quadrimestre de 2025 com desempenho expressivo: metas assistenciais superadas, alto nível de satisfação entre pacientes e familiares e mais de R$ 120 milhões em repasses públicos. Os dados constam no relatório oficial de monitoramento do contrato de gestão firmado entre a Secretaria de Saúde do DF e o Instituto do Câncer Infantil e Pediatria Especializada, responsável pela administração da unidade.
Apesar dos números positivos, o documento revela pontos de alerta que colocam em debate a sustentabilidade e a qualidade do modelo de gestão adotado.
Produção em alta: metas superadas e recorde em transplantes
O hospital ultrapassou praticamente todas as metas quantitativas previstas em contrato. Entre os destaques:
- Consultas médicas: 103,1% da meta
- Exames laboratoriais: 102,9%
- Cirurgias: 100,9%
- Internações em UTI: 115,4%
- Transplantes: 200% (o dobro do previsto)
Na prática, os dados indicam um hospital operando em ritmo intenso, com forte capacidade de entrega — especialmente em procedimentos de alta complexidade.
Aprovação quase unânime dos usuários
A avaliação dos serviços reforça a percepção positiva:
- Satisfação de familiares: 99,9%
- Satisfação dos pacientes: entre 95% e 99%
- Ouvidoria com resolução acima de 96%
Os indicadores apontam um padrão elevado de aprovação — cenário raro na rede pública.
Gargalos persistem: espera elevada e pressão assistencial
Apesar do desempenho global, o relatório expõe fragilidades operacionais:
- Tempo médio de espera para consultas: acima do limite (mais de 80 minutos)
- Exames gráficos e de imagem abaixo da meta
- Aumento gradual da taxa de mortalidade hospitalar (até 5,7%)
Outro ponto sensível é a estrutura de ensino: cinco programas de residência médica operam com número insuficiente de preceptores, em desacordo com exigências legais.
Segurança assistencial sob controle, mas com sinais de atenção
Indicadores críticos mostram cenário controlado:
- Infecções hospitalares dentro dos limites
- Pneumonia associada à ventilação: zero
- Reinternações em 24h: praticamente inexistentes
Por outro lado, eventos adversos moderados e graves continuam sendo registrados, o que exige vigilância contínua.
Mais de R$ 120 milhões e reforço via emendas parlamentares
O contrato garantiu repasses mensais superiores a R$ 32 milhões, com picos que chegaram a R$ 39 milhões. No período, foram assinados 12 termos aditivos, ampliando investimentos e serviços.
Entre os aportes, há recursos oriundos de emendas parlamentares de nomes como Damares Alves e Leila Barros, direcionados à compra de equipamentos, ampliação da UTI pediátrica e implantação de novos serviços.
Expansão tecnológica e mudanças estruturais
O hospital avançou em áreas estratégicas e conquistou habilitações importantes:
- Transplante pediátrico
- Terapia gênica
Ao mesmo tempo, perdeu habilitação em oncologia clínica dentro de complexo hospitalar — movimento que pode impactar o perfil assistencial da unidade.
Desconto milionário e custo com pessoal em alta
O relatório aponta ainda:
- Desconto de R$ 4,3 milhões devido à cessão de servidores
- Gasto elevado com pessoal, principal componente do orçamento
Mesmo assim, os indicadores financeiros permanecem equilibrados, sem sinais de desequilíbrio fiscal.
Conclusão: eficiência com sinais de desgaste
O balanço do período revela um hospital eficiente, produtivo e bem avaliado pela população. No entanto, também evidencia um sistema sob pressão:
- Alta demanda
- Estrutura tensionada
- Gargalos no acesso ambulatorial
- Desafios na formação médica
O modelo de gestão por organização social mostra capacidade de entrega, mas os dados indicam a necessidade de ajustes para evitar que o desempenho elevado se converta, no médio prazo, em sobrecarga estrutural.




