
A redistribuição da relatoria do chamado “caso Master” ao ministro André Mendonça, no Supremo Tribunal Federal, produziu efeitos que extrapolam o inquérito envolvendo o Banco Master. Em Brasília, a mudança foi lida não apenas sob a ótica jurídica, mas também sob a lente política — e, inevitavelmente, conectada ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
A saída de Dias Toffoli da relatoria, após a Polícia Federal localizar menções a seu nome no celular de Daniel Vorcaro, abriu espaço para um novo desenho institucional do caso. Mendonça foi sorteado relator e, de imediato, despertou apreensão em setores do Congresso, sobretudo entre lideranças do Centrão, que enxergam nele um perfil técnico, formalista e avesso a acomodações políticas.
Independência como ativo — e como teste
No Congresso, Mendonça é classificado como “independente”. A ironia é que essa independência começou a ser forjada ainda antes de sua posse. Indicado por Bolsonaro ao STF, o ministro enfrentou forte resistência na sabatina conduzida pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, então presidida por Davi Alcolumbre. O nome ficou represado por meses, num movimento interpretado como tentativa de inviabilizar a indicação.
Mendonça sobreviveu politicamente graças, em grande medida, ao apoio consolidado da bancada evangélica e de segmentos conservadores da sociedade. Ou seja: não foi fruto de um pacto orgânico com o Centrão. Esse detalhe ajuda a explicar por que, hoje, sua atuação não é vista como automaticamente alinhada a qualquer grupo político.
Ver essa foto no Instagram
O caso Master e a lógica da coerência
O ponto central é o seguinte: se Mendonça adotar no caso Master uma postura rigorosa, técnica e desprovida de concessões políticas — como já sinalizam interlocutores — estará reforçando sua imagem de magistrado fiel ao devido processo legal. E é justamente essa coerência que pode ter reflexos indiretos em outros processos sensíveis que orbitam o entorno de Bolsonaro.
Não se trata de interferência ou de favorecimento. Trata-se de jurisprudência comportamental. Um ministro que se pauta por garantias processuais, limites à persecução penal e estrita legalidade cria um padrão decisório. Esse padrão, aplicado indistintamente, pode beneficiar — ou prejudicar — qualquer parte submetida à Corte, inclusive o ex-presidente que o indicou.
Em outras palavras: a melhor forma de “fazer justiça” com Bolsonaro não é protegê-lo, mas aplicar o mesmo critério que se exige para qualquer cidadão. Se houver excesso investigativo, nulidade processual ou ampliação indevida de competência, a atuação técnica de Mendonça poderá funcionar como freio institucional. Se não houver, o avanço das investigações seguirá seu curso.
Justiça não é favor
Há um componente simbólico relevante. Bolsonaro foi alvo de múltiplas frentes investigativas desde o fim do mandato. Parte de sua base sustenta a narrativa de perseguição política. Parte de seus adversários defende rigor máximo. Nesse ambiente polarizado, o STF é pressionado por ambos os lados.
Mendonça, que carrega a marca de ter sido “o indicado de Bolsonaro”, tem diante de si uma oportunidade estratégica: demonstrar que sua atuação não é de lealdade pessoal, mas de fidelidade constitucional. Paradoxalmente, é essa postura que pode representar a forma mais sólida de justiça para com o ex-presidente.
Porque, no fim, a justiça que protege direitos fundamentais não escolhe destinatário. Ela estabelece parâmetros. E parâmetros, quando bem fixados, valem para todos — inclusive para quem um dia ocupou o Palácio do Planalto.
O caso Master pode ser apenas um inquérito financeiro. Mas, politicamente, tornou-se um teste de coerência institucional. E, nesse teste, André Mendonça tem a chance de mostrar que independência não é distanciamento — é compromisso com a regra do jogo.



