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sexta-feira, janeiro 30, 2026
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Quando a Tocha Olímpica valeu mais que dez máquinas de hemodiálise nos hospitais do DF

O governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, e a secretária de Esportes, Turismo e Lazer, Leila Barros, anunciam o percurso da tocha olímpica em Brasília.
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Tetiana Dolganova

Enquanto pacientes renais crônicos aguardavam vagas, equipamentos e atendimento adequado na rede pública de saúde do Distrito Federal, recursos públicos foram direcionados, em 2016, para viabilizar a passagem da Tocha Olímpica por Brasília. O montante gasto no evento — de caráter simbólico e temporário — seria suficiente para adquirir dez máquinas de hemodiálise, capazes de salvar vidas de forma contínua e permanente.

À época, o então governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg [PSB], ao lado da então secretária de Esporte, Turismo e Lazer, Leila Barros, anunciou com destaque o percurso da Tocha Olímpica pela capital federal. O evento integrou o roteiro nacional dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, iniciados oficialmente em agosto de 2016.

A tocha percorreu cerca de 300 localidades em todos os estados brasileiros, com pernoite em 83 cidades, incluindo as 27 capitais. Brasília foi escolhida como ponto inicial da jornada, em 3 de maio de 2016, reforçando seu simbolismo político e institucional.

O custo invisível da escolha política

Em contato com representante do setor de equipamentos médico-hospitalares — que solicitou anonimato — foi informado que, com o valor estimado investido exclusivamente na passagem da Tocha Olímpica por Brasília, seria possível adquirir dez máquinas de hemodiálise, ao custo aproximado de R$ 250 mil.

Para efeito de comparação, em outubro de 2013, o Hospital de Clínicas da Unicamp colocou em funcionamento 20 novas máquinas de hemodiálise, com investimento total de R$ 475 mil, custeadas pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Os equipamentos apresentavam diferenciais tecnológicos relevantes, como personalização conforme o perfil clínico do paciente e armazenamento de dados diretamente no sistema da máquina.

À época, o Centro Integrado de Nefrologia (CIN) da Unicamp atendia cerca de 40 pacientes por mês, entre adultos e crianças, demonstrando que investimentos relativamente modestos podem produzir impacto direto, mensurável e imediato na vida de pessoas com doença renal crônica.

Economia possível, escolha ignorada

Fonte: Portal dos Convênios – SICONV – Tocha Olímpica e Paralímpica em Brasília DF

A própria experiência paulista demonstrou que, em 2013, o custo de aquisição das máquinas foi 50% menor em relação a compras realizadas em 2008, graças ao uso de Atas de Registro de Preços, instrumento legal que racionaliza gastos públicos e amplia a eficiência das aquisições governamentais.

No Distrito Federal, entretanto, a opção política foi outra: priorizar um evento de visibilidade internacional, de curta duração, em detrimento de investimentos estruturantes na saúde pública.

Hemodiálise: tratamento vital, não evento

A diálise não cura a doença renal crônica, mas substitui parcialmente a função dos rins, filtrando o sangue para remover toxinas como ureia e creatinina. Na hemodiálise, esse processo ocorre por meio de uma máquina, em sessões que duram, em média, quatro horas, três vezes por semana, por toda a vida do paciente — salvo transplante.

A falta de equipamentos, vagas e estrutura adequada não é um dado abstrato: ela se traduz em sofrimento, agravamento clínico e morte.

Entre o espetáculo e a vida

A escolha entre investir em máquinas de hemodiálise ou em um evento simbólico expõe uma lógica recorrente da gestão pública brasileira: o espetáculo precede a política pública essencial; a imagem supera a vida.

“E que comecem os jogos de quem vive e de quem morre.”

Essa não é uma metáfora retórica. É uma constatação concreta.

Um nome, uma história, uma denúncia

Jorge de Carvalho, renal crônico, morreu no Hospital Regional do Gama, após uma intercorrência ocorrida no dia seguinte a uma sessão de hemodiálise. Ele aguardava atendimento. Não aguardava medalhas, nem cerimônias, nem holofotes.

É em seu nome — e no de milhares de brasileiros submetidos diariamente ao descaso estrutural do sistema de saúde — que este texto é escrito.

Porque, diferentemente da Tocha Olímpica, a dor dos pacientes renais não se apaga após alguns dias. Ela permanece. E cobra seu preço em vidas.