Futuros médicos tropeçam no básico enquanto alunos de Enfermagem dão aula no Enamed
O que deveria ser um termômetro da qualidade da formação médica no Brasil acabou expondo um quadro alarmante — e, para muitos, constrangedor. O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica [Enamed] revelou que mais de 30% dos cursos de medicina do país tiveram desempenho insuficiente. Até aí, já seria grave. Mas o vexame ganha contornos ainda mais contundentes quando se constata que questões consideradas elementares foram plenamente dominadas por estudantes de Enfermagem.
Seguintes temas principais:
- Clínica Médica
- Cirurgia Geral
- Ginecologia e Obstetrícia
- Pediatria
- Medicina de Família e Comunidade / Saúde Coletiva
- Saúde Mental e Ética Médica
No Distrito Federal, 20 alunos do curso de Enfermagem da Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS) foram convocados pelo portal S&DS para responder exatamente às questões que milhares de futuros médicos erraram. O resultado é eloquente: 14 estudantes acertaram 100% das questões, enquanto os outros seis atingiram 81% de acertos. Um desempenho que escancara não apenas excelência técnica, mas também o abismo preocupante na formação de quem, em tese, deveria liderar o cuidado médico.
Enquanto isso, quase 13 mil estudantes de medicina — todos no último ano do curso — erraram perguntas básicas sobre diagnóstico de dengue, manejo de dor de cabeça e prescrição de medicamentos. Situações corriqueiras, cotidianas, enfrentadas diariamente em qualquer unidade básica de saúde ou pronto atendimento.
Não se trata de casos raros ou diagnósticos exóticos. Uma das questões, classificada como “fácil” pelo Inep, abordava sinais de gravidade da dengue, doença endêmica no Brasil. Ainda assim, 66% dos reprovados erraram. Em outra, sobre uma mulher de 55 anos com cefaleia persistente, alterações visuais e fadiga — um quadro clássico que exige investigação simples para inflamação vascular — 65% falharam. Erros que, na vida real, podem custar sequelas irreversíveis ou vidas.
“Se o estudante de medicina não sabe manejar uma dor de cabeça ou reconhecer sinais de alerta, isso é extremamente preocupante”, alerta Alexandre Telles, presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro. Preocupante é pouco. É temerário.
O Enamed avaliou 351 cursos e mais de 39 mil alunos. O resultado aponta um problema estrutural profundo, reconhecido até por estudantes das próprias instituições mal avaliadas. A mercantilização do ensino médico, a ausência de hospitais-escola, estágios superlotados e docentes sobrecarregados ou fora de sua especialidade aparecem como sintomas recorrentes dessa doença educacional.
Enquanto futuros médicos tropeçam no uso do termômetro, alunos de Enfermagem demonstram domínio técnico, raciocínio clínico e segurança conceitual. Um dado que desmonta preconceitos históricos e reforça o papel central da Enfermagem na assistência em saúde — não como coadjuvante, mas como pilar técnico e científico do cuidado.
O contraste é constrangedor, mas revelador. E levanta uma pergunta incômoda: quem, afinal, está sendo melhor preparado para cuidar da população brasileira?
Diante do cenário, o Ministério da Educação anunciou sanções às instituições com baixo desempenho, incluindo suspensão de novas matrículas e redução de vagas. Já o Conselho Federal de Medicina defende a criação de um exame obrigatório de proficiência para o exercício profissional. Medidas tardias, mas inevitáveis.
O Enamed não tem prova prática, mas cobra o mínimo esperado de quem já atendeu pacientes. O problema é que, para milhares de futuros médicos, nem o mínimo foi alcançado. E quando estudantes de Enfermagem passam com louvor por aquilo que médicos em formação não conseguem responder, o alerta deixa de ser pedagógico e passa a ser social.
A saúde pública brasileira não pode ser laboratório de improvisos, nem refém de diplomas caros e formação frágil. O Enamed escancarou a ferida. Ignorá-la seria negligência institucional — e um risco direto à vida da população.





