18.5 C
Brasília
quinta-feira, janeiro 22, 2026
Início Destaques Se estamos em 2026, por que voltar a 2007 com Arruda?

Se estamos em 2026, por que voltar a 2007 com Arruda?

Enterro simbólico de Arruda preso na Sede da PF em Brasília. Adultização política responsável: Juliane Sanches e Samuel Sanches, guiados pelos valores familiares, protagonizaram um gesto simbólico em 2010 que marcou a história política do DF. Hoje, o episódio inspira reflexão sobre o papel da educação cidadã desde a infância.

2026 pede futuro, não a repetição de um passado condenado

Украина с любовью
Tetiana Dolganova

Se estamos em 2026, por que insistir em ressuscitar 2007 — e tudo o que ele simboliza de errado na política do Distrito Federal? A pergunta não é retórica, é moral, institucional e histórica. O retorno insistente de José Roberto Arruda ao debate eleitoral não representa renovação, nem redenção. Representa retrocesso.

Arruda pode ter jurado, em Roma, diante da Basílica de São Pedro, em suas férias, que não repetiria os erros do passado. O problema é que a política não se resolve por promessas espirituais, mas por responsabilidade jurídica, ética pública e memória coletiva. E essa memória não esquece a Caixa de Pandora, nem as múltiplas condenações por improbidade administrativa que o afastaram do poder e da vida eleitoral.

Ao voltar ao Brasil, Arruda deve encontrar fechadas as portas que realmente importam: as da elegibilidade. A manifestação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, ao endossar parcialmente a ADI da Rede Sustentabilidade contra a Lei Complementar 219/2025, recoloca a discussão no eixo correto: a Lei da Ficha Limpa não foi criada para ser contornada por conveniências políticas, mas para proteger a democracia de reincidências que custam caro ao país.

O Congresso Nacional, ao alterar a legislação em 2025, promoveu o que muitos juristas e movimentos sociais chamaram, com razão, de “esquartejamento” da Ficha Limpa. Uma lei que nasceu da iniciativa popular, símbolo raro de mobilização cidadã bem-sucedida, passou a ser desmontada para servir a interesses muito específicos — entre eles, o de políticos condenados que jamais aceitaram o veredicto da sociedade.

Não é detalhe menor lembrar que, desde 2010, mais de 5 mil candidaturas foram barradas com base na Ficha Limpa. Entre elas, nomes como Eduardo Cunha, Anthony Garotinho e o próprio Arruda. Não se trata de perseguição política, mas de um critério mínimo de decência institucional.

A manifestação da PGR, ao reforçar a inelegibilidade de condenados com múltiplas decisões por improbidade, como é o caso de Arruda, impede que alterações legislativas sejam usadas de forma oportunista e retroativa para limpar biografias que continuam juridicamente manchadas. O parecer atende, inclusive, a pedido da ministra Cármen Lúcia, relatora da ação no STF, que dará a palavra final sobre a constitucionalidade da mudança.

Enquanto isso, Arruda age como se a absolvição fosse certa. Desde sua filiação ao PSD-DF, em dezembro de 2025, intensificou uma campanha aberta, percorreu cidades, participou de atos políticos e criou um ambiente explícito de pré-candidatura ao GDF em 2026. A Justiça Eleitoral precisou intervir: o TRE-DF proibiu até mesmo o uso de um bonecão inflável com sua imagem, reconhecendo propaganda eleitoral antecipada.

O episódio é simbólico. Não se trata apenas de um inflável proibido, mas da tentativa permanente de normalizar o anormal, de transformar condenação em detalhe e passado em amnésia coletiva.

A manifestação da PGR caiu como um balde de água fria porque recoloca os fatos no lugar: a democracia não é um altar para promessas tardias, nem um palco para a reciclagem de velhos escândalos. Em 2026, o Distrito Federal precisa discutir futuro, soluções, responsabilidade e confiança pública — não revisitar um passado que já foi julgado, condenado e rejeitado pela sociedade.

Voltar a Arruda não é avançar. É repetir o erro sabendo exatamente onde ele termina.