A ROMANTIZAÇÃO do AUTISMO tornou-se um fenômeno contemporâneo perigoso. Não por ampliar a visibilidade — o que é necessário —, mas por distorcer a realidade da condição, especialmente quando essa narrativa é construída a partir de recortes sociais privilegiados. Como sintetiza, com crueza, o desabafo de Ana Cláudia Soares: “Autismo dói, machuca, tira a nossa vontade de tudo.” Essa frase, ignorada por discursos açucarados, revela o ponto central: só romantiza o autismo quem tem dinheiro para amortecer seus impactos
Há uma diferença brutal entre viver o autismo em famílias com recursos financeiros e enfrentá-lo na pobreza. No primeiro caso, há acesso a diagnóstico precoce, terapias multidisciplinares, escolas especializadas, acompanhamento psicológico, fonoaudiológico e ocupacional. No segundo, o autismo se manifesta como sobrecarga materna extrema, evasão escolar, desemprego, adoecimento mental e isolamento social. Transformar o transtorno em identidade cool, superpoder ou traço charmoso é, no mínimo, uma violência simbólica contra milhões de mães atípicas invisibilizadas.
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A expansão do diagnóstico não autoriza a banalização
É fato que os números cresceram — e muito. Nos Estados Unidos, o CDC apontava, em 2000, uma prevalência de 1 criança autista a cada 150. Em 2025, o dado salta para 1 em cada 31. No Brasil, embora falte um censo preciso, o aumento exponencial das matrículas escolares de alunos com TEA confirma a tendência global.
Esse crescimento, porém, não é fruto de “moda diagnóstica”, mas de avanços científicos e sociais. A publicação do DSM-5, em 2013, consolidou o conceito de espectro, incorporando quadros antes classificados como Síndrome de Asperger ou simplesmente ignorados. Houve também maior conscientização, redução do estigma, capacitação de profissionais e diagnósticos tardios em adultos que passaram a vida sem respostas.
Além disso, a ciência corrigiu distorções históricas: meninas e minorias passaram a ser diagnosticadas com mais precisão. Meninas, em especial, costumam camuflar sintomas por imitação social, recebendo o diagnóstico apenas na adolescência ou vida adulta. Tudo isso explica o aumento estatístico — não o transforma em algo leve ou desejável.
O que a romantização apaga deliberadamente
O discurso ROMANTIZADO seleciona apenas uma parte do espectro: adultos verbais, com autonomia funcional, acesso à educação e redes de apoio. Silencia, deliberadamente, sobre:
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crianças não verbais;
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crises sensoriais incapacitantes;
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automutilação;
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agressividade involuntária;
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dependência vitalícia;
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mães solo que abandonam o mercado de trabalho;
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famílias que judicializam terapias para sobreviver.
A ROMANTIZAÇÃO cria uma narrativa confortável para quem observa de fora, mas deslegitima a dor real de quem vive dentro da condição.
Nem a Bíblia romantizou o sofrimento psíquico
Curiosamente, até mesmo os textos bíblicos — frequentemente invocados em leituras contemporâneas — são mais honestos do que a cultura digital atual. A Bíblia não usa o termo “AUTISMO”, mas descreve pessoas com limitações cognitivas, comportamentais ou neurológicas com termos como loucura, mente confusa ou espírito perturbador.
Em Mateus 17:14–18, um pai suplica: “Senhor, tem misericórdia de meu filho, que é lunático…”. O termo grego selēniazomai descrevia crises convulsivas e comportamentos descontrolados — hoje associados a epilepsia ou transtornos neurológicos. Não há estética, não há romantização, há dor e pedido de socorro.
Até mesmo as leituras modernas que tentam identificar traços do espectro em personagens bíblicos — como Mateus, pelo foco extremo em detalhes, ou Moisés, por dificuldades de fala e rigidez normativa — não transformam essas possíveis neurodivergências em algo “bonito”. Elas reconhecem limites, conflitos e sofrimento dentro de um contexto histórico específico
O foco que ninguém quer dar
O ponto negligenciado — e raramente enfrentado — é que a romantização do autismo funciona como um marcador de classe social. Ela só se sustenta onde há capital financeiro, cultural e institucional. Para os pobres, o autismo não é discurso; é exaustão diária. Não é identidade; é sobrevivência. Não é inclusão simbólica; é ausência do Estado.
ROMANTIZAR o AUTISMO é confortável porque desloca a discussão da política pública para a estética emocional. Transforma uma condição de saúde complexa em narrativa inspiracional e, com isso, retira pressão sobre governos, sistemas de saúde e educação.
AUTISMO não precisa ser romantizado. Precisa ser compreendido, respeitado e assistido. O resto é privilégio travestido de empatia.




