Nos bastidores do poder, há movimentos que dizem mais pelo momento em que acontecem do que pelo discurso que tentam sustentar

Grupos que não demonstraram engajamento na campanha de Celina Leão no primeiro turno agora ensaiam uma aproximação ostensiva com a candidata. A mudança de postura levanta uma suspeita inevitável: o apoio nasceu da convicção política ou do receio de perder espaço na máquina pública?
A impressão é de que, diante da possibilidade de uma nova configuração de poder, alguns descobriram, tardiamente, uma afinidade que não fizeram questão de demonstrar quando ela poderia ter maior significado político.
O problema é que, na política, a memória dos fatos costuma sobreviver à conveniência dos discursos. Fotografias, manifestações públicas e declarações de última hora podem produzir uma aparência de alinhamento, mas não necessariamente convencem quem acompanha os bastidores.
É legítimo que alianças sejam ampliadas no segundo turno. O que soa contraditório é tentar transformar uma adesão tardia em prova de uma lealdade que não se evidenciou anteriormente.
A questão ganha contornos ainda mais delicados quando o apoio parece condicionado à preservação de cargos. Afinal, função pública não deve ser moeda de troca eleitoral, assim como demonstrações de fidelidade não deveriam servir de salvo-conduto para permanecer na estrutura administrativa.
No fim, a política separa os que defendem um projeto daqueles que apenas procuram garantir o próprio espaço e de seus amiguinhos.
O segundo turno pode até oferecer uma nova oportunidade de aproximação, mas não reescreve o primeiro. E há encenações tão tardias que, em vez de convencer, acabam revelando exatamente aquilo que pretendiam esconder.




